| 30.06.07
Menos Europa
Eles assinaram. Pelas quatro e trinta da madrugada assina-se o
que for preciso. Não dava mais para manter a compostura
da gravata nem a suavidade na palavra. Lá fora, os jornalistas
esticavam as pernas acima da cabeça à espera do fumo.
Qual? O que fosse, desde que branco. E ele saiu. Bom? Muito menos
do que isso. Apenas a medida exacta do que vale hoje a Europa dos
governos.
O defunto Tratado Constitucional, na minha modesta opinião,
era mau. A ideia de uma Constituição era boa, mas
o modo como a tentaram concretizar, foi péssimo. No processo
e na substância. Mas, agora, uma e outra continuam deploráveis,
sendo que a ideia, essa generosa, foi às malvas.
O defunto tratado queria reunir num só texto o essencial
do acervo comunitário. Era urgente «simplificar»,
juravam. Agora, foi-se a «simplificação».
Man- têm-se os tratados em vigor e aos ditos junta-se um
novo, que os emenda e lhes acrescenta uma extensa corte de anexos
e protocolos. De simplex, estamos conversados.
Ah, porque urgente, urgente, era mudar os sistemas de votos e
as maiorias qualificadas, sem as quais a Europa «não
conseguiria funcionar a 27». Pois. Mas aquelas sábias
criaturas decidiram que, afinal, o salvífico sistema de
dupla votação… só entrará em
vigor em 2017. Urgente, não era?
O defunto tratado também queria dar um «sinal social» aos
europeus. Por isso, incluía uma carta de Direitos Fundamentais.
Ela foi escrita pela média baixa das legislações
nacionais. Por exemplo, o direito ao emprego foi sibilinamente
transformado no direito «a procurar emprego»… Mas,
enfim, a ideia tinha a sua generosidade. Medíocre, era,
ainda assim, boa demais. Foi-se. É «imperativa»,
mas não se aplica ao Reino Unido. E tem «valor jurídico»,
mas «não estabelece qualquer novo poder ou missão
para a União, nem altera os poderes e missões definidos
nos tratados». Percebeu? Eles perceberam. Bem demais.
Podia prosseguir, na política externa ou nas questões
de Justiça. A União, criada pelos governos, foi por
estes raptada quando já devia pertencer aos cidadãos.
Enquanto assim for, voará baixinho. Em Bruxelas, contentam-se
com pouco. Estão por tudo.
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Referendo
José Sócrates jura que o assunto não foi discutido no Conselho
e creio que fala verdade. A decisão está plenamente interiorizada.
Há que fazer as coisas de modo a que não se chegue até aí.
O que não vale é o argumento por ele e pelo PS invocados – o
de que ainda não há tratado e não se sabe o que irá incluir.
Portugal, e bem, só aceitou introduzir o assunto na agenda da sua presidência
com um «mandato claro e preciso». E isso, ele é. Todos os
pontos difíceis foram acordados por escrito. São públicos.
Desenham uma Europa: a que os governos negociaram. Só falta perguntar
aos cidadãos se estão de acordo. É uma escolha política.
Para Sérgio Sousa Pinto, eurodeputado do PS, «as coisas importantes
não se referendam», ponto. Para mim, ao contrário, o que
não se deve referendar é o risível. Tenho por adquirido
que a política era muito mais simples antes da democracia. Mas não
consta que fosse melhor…
Miguel Portas |