| Miguel Portas
16.06.07
Educadora de infância
A entrevista que a directora da DREN, Margarida Moreira, deu esta
semana ao DN é um monumento de fidelidade à asneira.
Orgulha-se a senhora de, no ano passado, ter aberto 778 processos,
sendo o do professor Charrua, “um deles”. Extraordinário!
Margarida Moreira abre mais de 3 processos por dia e nem descansa
ao domingo. Pelo Norte, as coisas estão tão tortas,
que não se vê outra solução, senão
a de trocar de povo rapidamente. Verdade! A educadora infantil
revela que está uma “campanha em curso” contra
ela, porque “em dois anos mexeu em muitos interesses”.
Quais, pergunta a jornalista? “Havia uma coisa sórdida,
mafiosa”, garante Margarida. Em vários gabinetes de
apoio a deficientes, pagavam-se indevidamente subsídios
de ensino especial a miúdos que não o eram, apenas
porque pertenciam a famílias pobres. Ela acabou com isso: “reduzimos
em milhões e milhões de euros os encargos da segurança
social”, conclui, orgulhosa. Lê-se e não se
acredita. Admito que o Estado não faça vista grossa à lei,
só porque quem o tenta enganar seja uma família pobre.
Até aí, ainda posso ir, embora o bom senso recomendasse
outras prioridades. O que não se entende é que a
senhora fale “em milhões e milhões de euros”,
o que configuraria, na região Norte, uma fraude de dezenas
e dezenas de milhares de famílias. E menos ainda que se
exiba orgulho pela façanha, classificando-a de “luta
sem quartel” aos “interesses”. Esta conversa
já releva da pura e simples insanidade.
Demência, pois. O inquérito revelará se o comentário
do professor Charrua foi insulto ou piada de mau gosto. Mas Margarida
Moreira não se limita a dar a sua opinião. Ela define,
também, uma filosofia: “numa iniciativa desportiva,
se alguém insultar o árbitro, o que é que
acontece? E no talho da sua rua, se alguém insultar o patrão
o que é que lhe acontece?” Ok, ela está sob
pressão, a vida não é fácil, e devia
ter metido férias. Mas nestes exemplos só se descortina
uma lógica razoável: a do arraial de tabefes como
justiça informal. Qualquer outra, entupiria de tal modo
os serviços de Justiça, que lá se iam “os
milhões e milhões de euros” recuperados no
combate aos “interesses” dos pobres…
A directora reconhece ainda ter despachado seis professores,
um dos quais cego. “Por alguma razão obscura”,
interroga-se. Não, garante. “Mandei-os embora porque
deixaram de ser necessários”. Aliás, como se
sabe, “há que emagrecer os serviços”. É de
uma frieza de estarrecer. E revela uma cultura. Não apenas
a de sempre, que cultiva a autoridade pelo exercício da
força. Revela principalmente a moderna, a do socratismo,
que manda cortar a direito, sempre e sempre a direito. Em nome
do défice, claro…
Numa crónica recente, Eduardo Prado Coelho recomendava judiciosamente
a Mário Lino que se abstivesse de abrir a boca em público.
Razoável. O engenheiro até pode saber de obras, mas
no que é mesmo especialista é a cavar a sepultura
do governo. Sucede que, ao pé de Margarida Moreira, o ministro
passa por um simples e simpático menino de coro dos presidentes
da câmara do Oeste.
Miguel Portas |