| Miguel Portas
26.05.07

Rota de colisão
José Sócrates tinha uma secreta esperança
no sucesso da sua presidência europeia. Sucede que ninguém
lhe quer facilitar a vida. Ultimamente, as más notícias
não lhe chegam apenas de Portugal.
Em Estrasburgo, os primeiros-ministros de Itália e da Holanda
travaram-se de razões sobre o Tratado Constitucional. Romano
Prodi, entusiasticamente aplaudido pela eurocracia, anunciou as
suas condições, recusou um compromisso ‘por
baixo’, e ameaçou com uma Europa a duas velocidades,
se os recalcitrantes não vergarem. Falou pelos 18 que ratificaram
o Tratado Constitucional. Pelo contrário, Peter Balkenende,
defendeu uma Europa dos pequenos passos e um novo Tratado na linha
dos celebrados em Amesterdão e Nice, que foram complementos
ao de Maastricht. Falou por quem foi derrotado nos referendos caseiros,
e por quantos têm medo de virem a ser confrontados com a
sua reedição. Entre estas duas posições,
qualquer compromisso será sempre frouxo, salvo num ponto:
os povos têm que ser retirados da decisão.
José Sócrates já sabia que a coisa não
estava fácil. Percebeu agora que ficou dificílima.
E pode ficar pior se Sarkozy se lembrar de levar a sério
as suas próprias palavras. O novo Presidente francês
defende um complemento a Nice, que lhe possa justificar uma simples
ratificação parlamentar. Eis porque é grande
a tentação de uma aliança com Londres, uma
facada mortal no velho e moribundo eixo franco-alemão. Já de
Gordon Brown, que substituirá em breve Tony Blair na Downing
Street, se sabe pouco. Mas o único segredo que não
esconde é o do seu eurocepticismo.
A dois portugueses caiu em graça a desgraça de arbitrarem
a luta de gigantes que se avizinha. Vai ser bonito de se ver. Um
deles escolherá sempre o lado que lhe assegure a continuidade à frente
da Comissão. O outro pode encalhar. Entre as suas convicções íntimas
e o pragmatismo ante um país obrigado a referendo, pode
abrir-se um abismo. Por isso seria tão importante o país
saber o que terá ele respondido às 12 perguntas que
a senhora Merkel dirigiu aos 27 primeiros-ministros sobre o futuro
do Tratado. Por extraordinário que pareça, nenhum
as revelou, mesmo quando instados pelo respectivo Parlamento.
Com excepção dos dois batedores que esta semana
se exibiram em Estrasburgo, a segunda vida do Tratado Constitucional
começou pela ocultação das intenções.
Eis o segredo eri- gido em alma do negócio. Como se não
soubéssemos, todos, aonde tal regra sempre conduz em política:
aos negócios sem alma.
Roaming
Para que não se diga que digo sempre mal, a fixação
em 49 cêntimos do custo máximo das chamadas com roaming, é uma
grande vitória da Europa que se preocupa com os consumidores. É certo
que os lucros das operadoras neste tipo de chamadas continuam a
ser abusivos. Mas a decisão derrota a teoria segundo a qual
o mercado, deixado ao seu livre arbítrio, acaba sempre por
encontrar um equilíbrio óptimo. E faz vingar a ideia
de que os poderes públicos, quando intervêm, podem
colocar um mínimo de decência na casa. Só convinha
que quisessem mais vezes.
Miguel Portas |