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Miguel Portas
12.05.07

 


'Crowded hospital', imagem de Robert Winters

 


Urgências

Há uns três meses, João Semedo, deputado do BE, perguntou ao Governo qual o aumento de frequências nas urgências. A resposta chegou agora. Onde não encerraram Serviços de Atendimento Permanente (SAP), as variações de utentes nas urgências dos hospitais, entre Novembro de 2005 e Janeiro de 2006, e equivalente período entre 2006 e 2007, foi irrisória. Mais um a dois por cento, quanto muito três. Mas na região centro, on de o Governo decidira encerrar ao longo de 2006 dezenas de SAP, as urgências dos hospitais de Coimbra, Viseu, Aveiro e Vila Nova da Feira, tiveram acréscimos de utentes de 10 a 20 por cento. Como em regra já estavam pelas costuras, pior ficaram.

Os números oficiais agora revelados são o mais óbvio desmentido da ‘racionalidade’ implícita nos modelos de reorganização tecnocrática. No papel, eles parecem sempre bem, lógicos e imbatíveis. A variável que em regra não avaliam é o ‘factor humano’. Quando, pelo menos, meio milhão de portugueses não tem médico de família, o que sucede quando fecha um SAP, é que a diarreia, a febre ou um ataque de gripe se transferem desse serviço para a urgência hospitalar mais próxima. É estúpido que um tal serviço se tenha que ocupar de doenças agudas, mas corriqueiras. Mas é isso que acaba por suceder quando a lógica dos tecnocratas invade a decisão política.

Outro dia desloquei-me à Marinha Grande. Lá estavam cartazes de grande formato do PCP, exigindo o funcionamento do SAP local durante as 24 horas do dia. A exigência pode não fazer qualquer sentido. Admito até que vários SAP ainda em funcionamento possam não se justificar… desde que a rede de médicos de família do respectivo Centro de Saúde cubra efectivamente toda a população a ele adstrita.

O que, além de estúpido, é socialmente inaceitável é que se opere a restrição do serviço antes de outro o substituir com vantagem. Este é o ponto. Porque reflecte, acima de tudo, a política de compressão da despesa pública em vigor, que acaba sempre por ser paga por quem menos tem. E eis como até num pequeno SAP se pode descobrir a essência do socratismo.


Flexissegurança

A economia foi invadida por esta palavra mágica. Ela não é nova. Na Dinamarca, tem mais de 100 anos e o seu conteúdo foi evoluindo ao sabor das relações de força entre patrões e sindicatos, os primeiros apostados na flexibilidade, os segundos na segurança. A moda chega agora a Portugal. Na substância, o problema não difere dos SAP. Facilitar o despedimento individual quando a protecção no desemprego é ¼ da UE, é colocar a carroça à frente dos bois, começar uma casa pelo telhado. Dá sempre mau resultado.


Carmona

A Câmara de Lisboa caiu esta semana. Aos trambolhões, mas caiu. E começou a corrida. O PSD admite ganhar, desde que apresente alguém de cara lavada. É certo que o descaramento não tem limites, mas é pouco provável que os eleitores não dêem por ele… Afinal, quem escolheu Carmona Rodrigues, que agora se sente ‘vítima de terrorismo’? E quem se agarrou aos tachos, evitando eleições para a Assembleia Municipal? Nã, desta não vão longe.

Miguel Portas