| Miguel Portas
29.04.07

Riga
Bom dia, apresento-me, sou a Europa, um espaço de inteligência,
tolerância e convivência. Sou grande, vou da ponta
de Sagres ao Báltico. A Riga, e mesmo mais acima. Não
sabem onde fica? Riga é a capital da Letónia, um
antigo Estado da URSS, onde se fala o letão, e o inglês é uma
língua quase desconhecida. Sou assim, grande e generosa.
Foi a Riga que dois portugueses, o David, de 28 anos, e o João
Miguel, de 27, decidiram ir passar férias na Páscoa.
Seguiram os passos do Presidente da República de Portugal,
embora as suas motivações fossem mais da ordem da
paisagem. Partilhavam, uns e o outro, de uma suspeita que só se
revelaria fatal aos primeiros: a de que Riga era mesmo na Europa.
Estavam o David e o João Miguel de regresso de um curto
salto à Lituânia, terra vizinha, também Europa,
já se vê, quando o autocarro onde viajavam foi objecto
de uma busca. Os nossos amigos tinham 2 miligramas de haxixe com
eles e, pimba, lixaram-se. Detidos, encontram-se agora com residência
fixa, aguardando julgamento, não se sabe quando. O que se
sabe é que 2 miligramas - que em Portugal não merecem
sequer um puxão de orelhas - por lá dá pena
de prisão. A namorada de um deles está desesperada: "vejo
tudo a desmoronar", escreveu aos eurodeputados do seu país.
Se esta crónica ajudar a agilizar a diplomacia portuguesa,
já me dou por muito feliz.
Sirt
Bem mais complicado é o caso de cinco enfermeiras búlgaras,
também Europa, que foram, com um médico palestiniano,
condenadas à morte por um tribunal do coronel Khadaffi.
A acusação não era de posse de droga, mas
de terem espalhado o HIV/Sida na Líbia. O processo foi mais
do que obscuro. As famílias das que esperam o corredor da
morte estiveram em Bruxelas. Denunciaram actos de tortura e revelaram
um documentário onde o único búlgaro libertado
denunciou, às portas da prisão, as condições
de detenção e o orweliano procedimento das autoridades
líbias. Mas, principalmente, estas famílias estavam
exasperadas pela Europa. Desde que passou a considerar o coronel
uma "força do bem", calou-se. Nem se ouve. Assim
anda a "Europa dos valores", altiva nos negócios
e rasteira nos Direitos Humanos.
Varsóvia
Os EUA querem colocar na Polónia 10 interceptores de mísseis
e na república checa uma estação de radar.
O objectivo é "reforçar a segurança da
Europa", garante Robert Gates, secretário da defesa
da Casa Branca. Por isso, os gémeos fascistas que governam
a Polónia querem mais uma bateria de mísseis Patriot
no pacote. A quinta coluna de Washington na Europa é tão
ciosa da sua soberania, quanto rancorosa na eliminação
dos adversários.
A última vítima chama-se Bronislaw Geremek, medievalista
reputado e figura proeminente do movimento Solidarnosc que, nos
idos de 80, abalou o regime polaco. Geremek foi ministro dos negócios
estrangeiros nos primeiros anos da transição, e actualmente é eurodeputado.
A comissão de mandatos do seu país quer retirar-lhe
o cargo por se ter recusado a entregar uma declaração
onde reconhecia nunca ter colaborado com os serviços secretos
do período comunista. Foi o único desobediente, entre
51 eurodeputados polacos, 411 deputados nacionais e 98 senadores.
Todos os outros entregaram o papel, cuja veracidade um diligente
Instituto da Memória, com mais de 1 milhão de fichas
em arquivo, irá agora verificar. 700 mil polacos estão
abrangidos por esta caça às bruxas. Ela é tanto
mais extraordinária no tocante aos titulares de cargos públicos,
quanto estes já tinham sido obrigados a preencher declaração
similar em 1997. Para Geremek, a nova exigência é uma
segunda via de algo que ele já havia entregue uma vez.
Boa tarde, despeço-me, sou a Europa. Raptada por tempos
de intolerância e cinismo, não posso dizer que me
recomende.
Miguel Portas
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