| Sucesso
e canudo
Miguel Portas
22.04.07

Pedro Abrunhosa seria pica-bilhetes se não tivesse estudado
e Carlos Queirós um pobre apanha-bolas? Colocada a pergunta
logo se intui a resposta. Claro que não. Ambos devem o seu
sucesso a uma virtuosa combinação de factores onde,
bem mais do que os estudos, avultam doses muito razoáveis
de talento e trabalho. Ou seja, do saber da experiência.
O problema da actual campanha publicitária é de texto
e contexto. Comecemos pelo primeiro: lá estaria inevitavelmente
Cristiano Ronaldo, se os seus estudos não fossem inversamente
proporcionais ao génio. E no entanto, a chave da coisa até podia
ser simples e generosa: nunca é tarde para estudar e vale
sempre a pena. Não é difícil descortinar uma
boa dezena de razões para tanto. Da oportunidade agora aberta,
ao prazer de aprender, é só escolher. Mas os publicitários
encontraram a única que releva da mentira e, pior do que
isso, do desprezo pelo trabalho manual. Esta é uma campanha
estúpida, indigente e reaccionária. Que excelentes
profissionais lhe tenham dado rosto, é uma pena. Tal gesto
apenas prova que os estudos não certificam bom senso. Mais
grave é a posição de quem a imaginou. Apesar
dos estudos, da vida só aprenderam a facturar. E pior, a
responsabilidade de quem aprovou. De castigo, deveriam ser obrigados
a regressar à escola, até distinguissem entre estudos,
educação e sucesso.
Se o texto é mau, péssimo é o contexto. Licenciados
pica-bilhetes, apanha-bolas ou simplesmente desempregados é coisa
que não falta. Como olham eles para esta campanha? E como
pode o cidadão comum deixar de a associar às confusões
do dossier curricular do primeiro-ministro? Como pode ele, mesmo
não dando para o peditório da saga, deixar de concluir: "sem
canudo estou tramado? Faça-se então o que tiver que
ser feito". Horrível.
... E no entanto... esta é a lei não escrita da actual
sociedade capitalista. A campanha ilustra, como poucas, um sistema
de valores e o contexto amplifica-os. Infelizmente, não é fruto
do azar ou de um buraco criativo. É produto de uma cultura,
a dos vencedores, e da estrutura social que a reproduz.
Gato
Ricardo
Araújo Pereira não intervirá na
manifestação do 25 de Abril. O veto poderia ter vindo
dos socialistas, vítimas de excelência do humor do
Gato, mas não. Foi o PCP quem chumbou. Por favor, não
veja esta atitude como prova de sectarismo ou, quiçá,
de obtusidade, o que seria sintoma de primitivo anti-comunismo;
admita antes que a revolução não é um
passeio pelas ínvias veredas do riso. Mesmo a representação
juvenil da CGTP apoiou a posição dos camaradas, numa
digna prova de independência... de classe. Assim vamos longe.
PNR
A porta-voz dos fascistas, Rita Vaz, anda indignada com as
detenções feitas pela Judiciária. Afinal, "as
ideias não se apagam, discutem-se", não é?
O azar é quando se descobrem nas casas dos suspeitos, vários
auxiliares de debate, habitualmente conhecidos por "armas
de fogo". Questionada, a jovem não se amedrontou: "Tinham
armas? Mas isso é do foro privado de cada um". Podia
ter acrescentado, "nos EUA é assim". E interrogada
sobre o massacre da Virgínia sempre poderia concluir: "que
querem? o filho da p... era amarelo".
Miguel Portas
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