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Marcha forçada

Miguel Portas
06.04.07

 

”Até às eleições para o Parlamento Europeu de 2009, dotaremos a União Europeia de uma base comum e renovada”, garantiu recentemente Angela Merkel. Vejamos como:

Até Junho de 2007, a presidência alemã divulgará o calendário para um novo Tratado. Competirá às presidências portuguesa e eslovena realizar as conferências que permitam chegar a acordo.

A primeira dificuldade sobra para Portugal: deve o novo texto ser “institucional” ou “constitucional”? Metade dos governos prefere a variante, minimal, que deixa cair a terceira parte da actual proposta de Tratado para salvar a primeira e, talvez, a segunda. Todavia, quem já ratificou, prefere manter o que está, com uns anexos que “amoleçam” as rejeições francesa e holandesa. Estados poderosos encontram-se dos dois lados da barricada. E a França em nenhum… até à eleição presidencial. Admitamos, contudo, que corre bem.

Sobram os sarilhos para a presidência eslovena. Em cima da mesa vão estar novas propostas de equilíbrios de poderes. Nenhuma fidelidade ao anterior Tratado o torna reabrindo-se o processo. É alhada pela certa. Mas admitamo-la digerível.

Segue-se, entre Julho de 2008 e Junho de 2009, mês das eleições para o Parlamento Europeu, a ratificação. Nos 17 Estados que já o tinham feito, os governos imporão expeditas confirmações parlamentares. Mas não é certo que todos consigam afastar da equação a figura do referendo. Para eles, quanto maior a diferença entre o novo articulado e a versão original, pior. Mas já com a França e a Holanda se passa precisamente o contrário. E sobram ainda os que ficaram de fora, como Portugal, o Reino Unido, a república checa ou a Polónia. Destes, só Portugal, em teoria, daria o seu Sim em referendo. Em teoria…

Em resumo: o road map alemão depende de uma excepcional conjugação de imponderáveis. E, acima de tudo, de se retirarem os povos da equação, evitando a realização de referendos. Conclusão: o preço de um improvável sucesso na marcha forçada para um Tratado recauchutado é o fracasso da democracia. Brilhante, não é?

 

Ousar Lutar ousar vencer

Esta a lição de Wu Ping e Yang Wu, o casal que resistiu, intrépido, a todas as tentativas de demolição da sua casa em Chongqing, cobiçada por um promotor imobiliário que queria erguer, no quarteirão, um centro comercial. Em redor da habitação, as máquinas cavaram um imenso fosso. E a casa lá resistia, isolada do mundo. Lindo de se ver. Finalmente, o promotor abriu a carteira. A resistência anti-consumista do barraco rendeu 97 mil euros ao casal. O valor de troca do socialismo pelo capitalismo ronda, assim, os 970 euros por m2…

 

Pontos de vista

José Alho, responsável de uma associação da GNR, acha que “ganhar pouco não é desculpa” para que um guarda aceite ser subornado. Disse-o, e muito bem, comentando um caso de flagrante delito de um camarada seu. Como se sabe, este não é um ponto de vista geral. Boa parte da classe política acha que ser-se “mal pago” é meio caminho andado, ou para a crise de vocações ou para a corrupção. Ou, acrescento eu, para se acumularem tachos. Basta olhar para o CV dos novos administradores da EPUL…

Miguel Portas