| Poder
e dúvida
Miguel Portas
31.03.07

Afinal, o padre era, ou não, pedófilo? E acabou
por ser transferido para um outro colégio de freiras, mais
prestigiado, porque o seu superior o quis proteger do boato local
ou, pelo contrário, porque o bispo tinha, também
ele, segredos que só Deus conhecia? Quem criou o enredo,
não responde. Não revela, sequer, a sua mais íntima
convicção. Quem a formou, inabalável e feroz,
foi Eunice Muñoz, que representa o papel de madre superiora
e directora escolar. Com base numa suspeição nunca
confirmada, fará tudo para afastar o padre que encantava
os alunos. Em nome do combate ao pecado eventual, a irmã vai
mergulhar sem hesitações no pântano da mentira
e da chantagem. Só no fim, depois de ter alcançado
os seus objectivos, fraqueja e chora. O Senhor não iluminou
a sua escolha. Nunca saberá se foi o padre que pecou por
amor, ou ela, por falta deste. A Dúvida atormentá-la-á enquanto
viver.
Escrevo sobre a peça que esta semana estreou no Teatro Maria
Matos. O texto é tramado e magnífica a sua adaptação à cena.
Com ele, o autor, J. Patrick Shanley, quer convencer-nos de “que
a dúvida requer mais coragem do que a convicção”.
Tem razão. Mas deve acrescentar-se que a dúvida só emerge
onde mora a convicção. Sem esta, aquela carece de
sentido. Este paradoxo sugere uma ida ao cinema. Em A
maldição
da flor dourada, de Zhang Yimou, o poder exibe-se em toda a sua
crueza, indiferente a qualquer crença ou projecto. A cadeira
do mando disputa-se sem perdão ou compaixão entre
os membros da família real, porque, aí, o poder se
esgota e legitima em si mesmo, como pura autoridade. Ele é,
e ponto. Assim entendido, admite disputa, mas não se discute.
Por isso, A Maldição é uma ópera de
tons carregados, onde a guerra é coreográfica e a
matança, uma estética. Civilização
e barbárie casam-se para lá de quaisquer noções
de Bem e de Mal, as categorias morais de A Dúvida.
Vêm estas sugestões a propósito do último
Prós e Contras, sobre a localização do futuro
aeroporto na Ota, e a pertinência de um novo estudo preliminar
para uma segunda localização, no Poceirão.
Não sei se o debate convenceu o governo. A mim, sim. Entre
um gabinete aprisionado à sua própria certeza, ou
ter a possibilidade de o ver escolhendo, bem ou mal, porque tem
duas hipóteses na mão, prefiro a segunda. Perder-se-ia
o prazer íntimo de ver um primeiro-ministro, obtuso, errar
por submeter a decisão à lógica da afirmação
da autoridade. Mas o país ganharia com a certeza de que
São Bento não é a Cidade Proibida. Por outro
lado, não se deseja a ninguém a tormenta de Eunice
Muñoz. Decidir, transferindo irremediavelmente as consequências
de uma convicção para terceiros, só porque
ninguém, no governo, se quis expor à dúvida
razoável, é, no mínimo, pouco sábio.
E se os custos de vária ordem se descontrolarem, uma hipótese
nacional mais que provável, como ficará a consciência
de quem escolheu sem alternativa? Mário Lino e José Sócrates,
por favor, dêem uma saltada ao teatro. É lá que
fica a antecâmara da sabedoria.
Miguel Portas
|