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Comentário ao comentário. Irão

Miguel Portas
10.03.07

Na medida das minhas possibilidades de tempo, tenciono dialogar com os comentadores dos meus artigos. Deixarei de lado o insulto gratuito. E serei telegráfico sobre os argumentos.

Caro inj:

1. Quando se discute a questão do nuclear iraniano, o primeiro problema que se coloca é de Direito Internacional e não de regime. Teerão tem ou não, direito à energia nuclear para fins civis? Independentemente do regime, tem. Isto elimina desde logo a opção militar como recurso contra essa vontade. Só a negociação é um caminho aceitável sobre este assunto.

2. Ao contrário do que sustenta, não é aceitável o recurso a "qualquer hipótese", em nome de um hipotético objectivo oculto de Teerão - nomeadamente o de pretender o nuclear para fins civis como passagem para a bomba. E não o é porque as relações internacionais não se podem basear em presunções não verificadas nem verificáveis. Da última vez em que a presunção de culpabilidade se colocou no centro da política internacional, o Iraque foi invadido. Com os resultados que se conhecem.

3. Não vale a pena esgrimir, de cada vez que se critica a administração de Bush filho, com acusações de "anti-americanismo primário". Esse tipo de argumento é rigorosamente simétrico do que os soviéticos usavam quando se faziam certeiras críticas ao "socialismo real". Não fui eu, mas Zbigniew Brzezinski quem, numa recente audição parlamentar norte-americana, sustentou que se a Casa Branca "não atingir os objectivos fixados no Iraque", o fracasso "seria seguido de acusações que o imputariam ao Irão; depois, far-se-ia uma provocação no Iraque ou um atentado terrorista nos EUA, atribuído ao Irão, culminando com uma operação militar defensiva contra este país que conduziria uma América isolada num atoleiro cada vez mais estendido e profundo, englobando o Iraque, o Irão, o Paquistão e o Afeganistão". Brzezinski não precisa de apresentação. Eu não escrevo nem metade do que este antigo conselheiro afirma hoje. Mas subscrevo - porque não sou, nem de longe nem de perto, anti-americano, a conclusão que ele tira: "a escolha da guerra foi uma calamidade histórica, estratégica e moral".

4. Não creio ser preciso recordar que a única potência mundial que até hoje usou a bomba atómica sobre populações foram os Estados Unidos. Nenhum outro regime, democrático ou ditatorial, o fez até hoje. Também não creio ser preciso recordar que os únicos Estados do Próximo e Médio Oriente que têm a bomba, são regimes democráticos que não subscreveram o Tratado de Não Proliferação Nuclear e que por isso não estão submetidos a qualquer tipo de fiscalização internacional - Israel, Índia e Paquistão. O que a História nos recomenda é que separemos a questão do regime da questão da bomba. E que sobre esta nos possamos agarrar, estritamente, ao Direito Internacional.

5. Sobre o regime de Teerão e as fanfarronadas do seu presidente já escrevi nesta mesma coluna. Independentemente da frase que lhe foi atribuída sobre Israel não ter sido a que foi divulgada nos Media - o Guardian explicou isto muito bem - Ahmenadjad não é flor que se cheire. Dito isto, não se pode reduzir o pluralismo da sociedade iraniana e mesmo da comunidade xiita, ao presidente do Irão. A não ser que se queira mesmo realizar uma profecia anunciada - a da inevitabilidade de mais uma escalada na guerra.

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Com posição

O porta-voz do MAI «não reconhece legitimidade ao Departamento de Estado norte-americano para fazer comentários sobre os Direitos Humanos em Portugal». Com Guantánamo, extradições extrajudiciais, etc., os EUA não têm qualquer autoridade para mandar bitaites. Até senti uma ponta de orgulho. E logo outra de irritação: é que a declaração nada teve a ver com o special friend das Necessidades...

Sem posição

Garante o DN que Portugal não tem opinião sobre a iniciativa franco-alemã de criar um livro europeu de História. Eis uma posição avisada. Se a ideia é boa, o resultado será previsivelmente sofrível. Boa, porque a ‘desnacionalização’ das Histórias Universais só pode fazer bem à inteligência colectiva. Sofrível, porque a tendência será sempre para neutralizar o que na História foi mais fracturante, e dissolver as periferias no coração dos acontecimentos. Dito isto, não há nada como sujeitar um mono a avaliação pública. E só depois decidir.

Miguel Portas