| Cavalos
de corrida
Miguel Portas
03.03.07

Desenho: Steve Heynen
De longe, não é fácil acompanhar a saga da
eleição dos grandes portugueses. Uma sorte. Só a
lista dá dores de cabeça. Apetece logo duvidar de
uma pátria nascida de um chefe de bando pouco terno com
a família e que, 850 anos mais tarde, inclui Salazar entre
os candidatos à glória televisiva.
Claro que há, na lista, grandes, médias e pequenas
figuras. Cada uma merece, em si, a avaliação de cada
qual. E todas justificariam divulgação, polémica,
controvérsia. Sucede que a direcção de programas
da RTP pensou que o que teria interesse cultural seria expectavelmente
pobre de audiências. Importou, por isso, um formato de sucesso
garantido. O seu instrumento principal é o recurso ao voto
dos telespectadores, técnica em voga no entretenimento.
Talvez assim o pobre e humilde bom povo se rendesse aos rostos
da honra nacional…
Desculpem lá a caretice do ‘cota’, mas não
consigo transformar as figuras da nossa História em cavalos
de corrida. Não descortino um só grama de seriedade
na competição entre D. João II e Fernando
Pessoa. Nem sequer entre este e Luís Camões, ‘a
ver quem é o melhor’. O recurso à técnica
do voto como legitimação da ‘opinião
dos portugueses’ ou da ‘escolha de Portugal’ é o
que este formato tem de mais miserável e provinciano. É uma
espécie do ‘lá vamos cantando e rindo, levados,
levados sim’, montados numa mascarada eleitoral.
Numa contenda entre incomparáveis só podia funcionar
a memória curta. O ridículo mata. Na disputa particular
entre Salazar e Álvaro Cunhal, recebi esseémeésses
pedindo o voto neste contra aquele, como se de uma reedição
audiovisual dos combates antifascistas se tratasse. Tudo em benefício
de uma qualquer empresa de serviços de valor acrescentado.
A 70 paus por voto, o único real vencedor enche a sua conta
bancária com a miséria alheia.
Na Alemanha, meio milhão de almas votaram em Karl Marx,
que teorizou a coisificação e mercadorização
das relações humanas. Subiu ao pódio. Alguém
pensa que, lá da tumba, sentiu uma ponta de orgulho? Ele
corou, mas de vergonha. Ainda por lá se deve andar a revolver,
e não por falsa modéstia, atributo que nunca teve.
Há momentos em que só se pode dizer: ‘Boicotemos
a farsa eleitoral’. Eu não voto.
  
O major Reinaldo
No pico da crise em Timor Leste, esta criatura era procurada
com mandato de captura, e dava entrevistas à vista das forças
de segurança australianas, contra Mari Alkatiri, o primeiro-ministro
de então. Fez então o trabalhinho sujo para os
adversários da Fretilin. Mas os tempos mudaram. O major
está agora decepcionado com Xanana Gusmão. Este
tê--lo-á mandado cercar… por quem antes o
protegia, mas, pasme-se, «sem mandato de captura».
Dito em bom inglês, que para ele «GNR go home»…
Andolitá cara de amendoá
Xanana queria reformar-se para se dedicar à fotografia e à plantação
de abóboras. Quanto a Ramos-Horta, os seus desejos eram
mais esvoaçantes, entre a França e os ares académicos
de Harvard. Contudo, o dever chamou-os. O Nobel candidatou-se a
Presidente e este, tudo indica, anda em tirocínio para primeiro-ministro.
Quem diria que pelas bandas de Díli se não aprende
rápido, hem? Só falta os eleitores estarem pelos
ajustes.
Miguel Portas
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