| O
Líbano aqui tão perto
Miguel Portas
15.12.2006

Demanda Marques Mendes novas do Líbano. Diz Severiano Teixeira
que a situação se pode complicar, entre hip hurras
e vai abaixo, vai acima. Aqui vai o meu contributo:
1. No Líbano não se confrontam, de um lado, os "pró-sírios",
e do outro, o "governo legítimo". Esta é,
quando muito, a versão "ocidental" que medias
de memória curta reproduzem.
2. No Líbano não está em curso "um golpe
de Estado". Não se fazem "golpes de Estado" com
um milhão de pessoas na rua. Quando muito, fazem-se revoluções.
Mas no caso, nem isso. Os chamados "pró-sírios" exigem,
simplesmente, uma minoria qualificada no governo - o bastante para
poderem "bloquear" decisões, ou seja, forçarem
compromissos.
3. Excessivo? Não creio. Os governos libaneses não
são como os de cá, formados pela maioria. São
como as nossas câmaras municipais. Todos lá cabem,
desde que o desejem, e mais ou menos de acordo com o seu peso eleitoral.
Não é só tradição. É mandato
constitucional. As forças ditas "pró-sírias" têm
53 deputados em 120. Na realidade, obtiveram em 2005 a maioria
dos votos. Só o arrevesado sistema eleitoral libanês
transformou essa maioria em minoria de deputados. Pode gostar-se
ou não da oposição. Mas ela tem uma minoria
de bloqueio no Parlamento e não existe qualquer ilegitimidade
na pretensão do seu alargamento ao governo. Nem nos meios
de pressão escolhidos: lá como cá, a rua faz
parte da democracia.
4. Acresce que, há 4 meses, Israel invadiu e bombardeou
o Líbano. O Sul, maioritariamente chiita, resistiu. Todo
o país lhe agradeceu. Na sequência da guerra, a principal
força dessa resistência - o Hezbollah - passou a defender
um "governo de unidade nacional" que incluísse,
também, o partido do ex-general Michel Aoun, o maior entre
os cristãos, então na oposição.
5. Foi a obstinação da maioria do governo que gerou
a presente crise. Sem os partidos chiitas e sem o partido de Michel
Aoun, que representa 60 a 70 por cento da maior comunidade libanesa,
o governo é largamente minoritário. Mas o que lhe
falta em apoio popular, sobra-lhe em cobertura norte-americana. É Washington
quem força o primeiro-ministro à inflexibilidade.
Fá-lo no Líbano, do mesmo modo que na Palestina e
no Iraque. Bem mais do que as ingerências sírias,
em Beirute pesam as de ocidente. Mas ninguém escreve que
o governo é "pró-americano"...
6. Michel Aoun é o porta-voz oficial da oposição.
Não é muçulmano nem "pró-sírio".
Foi a Síria, com cobertura norte-americana, que forçou
este líder cristão a um exílio de 16 anos.
O Hezbollah também não recebe ordens do vizinho.
Durante o protectorado, nunca participou nos seus governos. Já as
principais figuras do actual governo se sentar sempre à mesa
dos orçamentos. Por causa das benesses, foram "pró-sírios".
Por causa das benesses são agora "pró-ocidentais".
Ontem e hoje nunca deixaram, contudo, de ser o que realmente são:
chefes de clã.
7. O Líbano só deixará de ser uma promessa
se contiver a disputa entre comunidades no marco da política.
Um compromisso é indispensável. A Europa faria bem
em distanciar-se de G.W.Bush e ler com atenção o
relatório Baker/Hamilton. Um novo equilíbrio é inevitável
no Médio Oriente. Ele chegará através das
armas, cavando cemitérios, ou pela mão da política.
Não tenho dúvidas sobre a escolha acertada.
..... Ai Carolina…
Dizem-me que na Pátria não se discute outra coisa.
Capaz disso é ela, que não se tem em grande conta.
Paixão, traição, vingança e futebol
- os medias amplificam. Porque é notícia, claro.
E futebol, e figuras públicas e dossiers de justiça.
Serviço público, portanto. Detesto o ofício
de jornalista quando se vampirisa. Sórdida a senhora que
transforma ódio em direitos de autor; sórdido o senhor
que a põe em tribunal por tentativa de extorsão.
Sórdido o jornalismo que chupa no sangue da miséria
humana. E horrível a sociedade que se deleita, voyeurista.
Estalinismo
Diz Helena Lopes da Costa que se candidatou à concelhia
de Algés do PSD quando impediram o filho de nela se filiar.
Com o que agora se sabe, suspeito que o fizeram por comiseração
e elevada estima. É que, garante a mãe, embora ganhando,
foi vítima de chapeladas várias, que incluíram “assalto
administrativo” e filiações falsas. Houve até o
caso de uma filiação de 21 laranjinhas com morada
na mesma casa. É concerteza uma família cristã,
a quem o pároco local recomendou penitência colectiva
no PSD.
Miguel Portas
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