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Mister danger

Miguel Portas
artigo publicado no Sol, 09.12.2006

 

 

"Que saudades tenho da guerra-fria", suspira M, a briosa chefe dos serviços secretos britânicos ante o fantástico poder destruidor do novo 007. Compreende-se. A senhora dos cabelos brancos é de um tempo onde os espiões presumidamente matavam com elegância e cada serviço apreciava e invejava os lances do outro. Num fundo, uma "comunidade", uma "santa família" onde até o general do KGB combinava algum bom senso com reservado senso de humor. O homem com Lenine atrás da secretária até podia ser dos bons, não fosse ter nascido no lado dos maus.

Mas o mundo mudou. E os agentes também. O novo Bond não prima pela sofisticação. Corre que se farta, mata meio elenco, balda-se às cenas de marmelada, deixa-se envenenar e até gama os segredos da patroa. È um genuíno filho do povo. Usa, até, a primeira grande marca do povo. Ainda por lá anda um Austin Martin, mas o seu condutor está mais perto do hooligan do que da aristocracia. Eis porque gosto deste 007. Ele está em sintonia. É agente para tempos de Iraque, montanhas do Afeganistão e mercenários de África. Ei-lo, enérgico e ingénuo, como fantasia da hiper-realidade. M só pode suspirar - "ele é o que é". A seu lado, Stallone emerge como um intelectual e Scharzeneger, que nem era mau actor, faz figura de governador de um Estado solarengo. Faz mesmo.

No próximo episódio da saga, suspeito que Bond terá no porta-luvas as mini bombas nucleares que Tony Blair quer no arsenal britânico. Ou correrá atrás do terrorista que as roubou, só porque o primeiro, que passa por responsável, as mandou desenvolver. Este é o Bond da guerra anti-terrorista, no que ela tem de mais contemporâneo: a sua absoluta indiferença à condição humana. A notável sequência com que o filme se inicia - uma perseguição entre guindastes - é, em si mesma, uma metáfora do lado selvagem do presente. O mesmo se poderia dizer da moral da aventura: o herói é absolvido e reconhecido exactamente porque é letal. Atropela tantas regras que os maus parecem meninos de coro. Um, coitado, chora lágrimas de sangue; outro é pirata de um olho; e só o chefe respeita os acordos, deixando viver quem o matará. Este Bond incomoda que se farta. Viva Bond!

 

A senhora que se segue

Ségolène Royal nem começou mal o seu périplo pelo Médio Oriente. Disse que aí estava para falar com todos e que a Paz não se faz só com os amigos. Mas, pressionada à direita, logo ensaiou a asneira: "não se pode deixar o Irão aceder ao nuclear civil, logo militar. Esta será a minha posição se for eleita". Israel aplaudiu de imediato. Aliás, a senhora "esqueceu-se" de condenar o Muro e não falou com o Hamas. Num ápice, ei-la aos pontapés no Direito Internacional, no Tribunal Penal Internacional e alinhando com a direita sionista no dossier palestiniano. Ainda acaba a contratar James Bond.

 

Fifty fifty

Se uma nova guerreira desponta em Paris, em Washington, o imperador confronta-se com uma bateria de pesos pesados que acham que à bruta a coisa não vai lá. Na opinião dos sábios conselheiros de seu pai, há soldados e Bonds de nova geração a mais nos teatros de operações. Veremos como corre este debate. Hesito na aposta: fifty fifty entre as meias tintas e novos batalhões de carne para canhão.

 

Miguel Portas