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Miguel Portas
artigo publicado no Sol, 11.11.2006

 

 

Há uma semana, G.W. Bush repetia e repetia que Donald Rumsfeld, o arquitecto da guerra do Iraque, estava a fazer “um trabalho magnífico”. No dia em que se conheceram os resultados das eleições intercalares norte-americanas, ele foi a primeira vítima. O homem da sala oval sacrificou-o em nome, explicou, de “uma perspectiva fresca”.

O presidente norte-americano perdeu a câmara baixa e, tudo indica, também o senado. Os democratas beneficiaram da desgraçada condução da política de guerra, muito em particular no Iraque. Há três anos e meio, o imperador decidiu enviar as suas tropas para a aventura. Mentiu com quantos dentes tinha, para a impor. Agora recebeu, na sua própria casa, os efeitos diferidos da decisão. Seria caso para se dizer, bem feito! Mas é bem pequena compensação para as 650 mil vítimas que a invasão da Mesopotâmia desencadeou.

O verdadeiro problema é que não existe qualquer “perspectiva fresca” para o drama. Os democratas ganharam, mas não têm para a guerra, nenhuma alternativa de Paz. Como dizia alguém que muito estimo, eles são uma espécie de ala esquerda… do CDS. Acresce que as diferenças entre republicanos e democratas se confundem com facilidade. É tão fácil encontrar um conservador a favor do aborto legal e dos direitos gay, como liberais amantes da guerra. O que se revelou impossível foi encontrar uma maioria que seguisse o imperador no seu louco sonho de vitória. Nem foi preciso lembrar aos mais esquecidos que os cenários de 2003 previam que, em 18 meses, as tropas de invasão não excederiam os 20 mil homens, agrupadas em 4 bases militares. O que os estrategas desenharam para o Afeganistão também não era muito diferente. Os eleitores perceberam, simplesmente, que o Vietname regressou em forma de pesadelo. Intuem, até, que já não há boas soluções. A viragem eleitoral não mudará substancialmente a política da Casa Branca. A exigência do regresso das tropas é que se irá começar a fazer sentir nas ruas. Essa é, de resto, a única “perspectiva fresca” que sobra aos EUA - saírem de onde nunca deviam ter entrado.

Ortega de novo

As más notícias perseguem a casa Branca também na Nicarágua, onde Daniel Ortega regressa ao poder, desta por via eleitoral. Para o conseguir, fez uns tantos acordos de duvidosa integridade com os seus antigos adversários políticos. Mas a vitória sandinista confirma e prolonga a grande vaga de viragem latino-americana. Se o Império é um grande cobertor, ele parece pequeno para as dimensões do planeta. Quando as armas o levam para o Médio Oriente, logo os pés se destapam nas Américas. Ou vice-versa…

Parada gay

Para ontem estava prevista uma parada gay e lésbica em Jerusalém. Não sei se ocorreu, ou não, no momento em que escrevo. Só sei que ela conseguiu o que jamais a política ousaria sonhar – colocar as três religiões do Livro a falar em uníssono. Certo, a sua ira dirige-se contra a “pouca vergonha”. Mas, convenhamos, ver judeus, cristãos e muçulmanos a orar unidos é obra. Insondáveis são os desígnios do Todo-poderoso. E mais ainda os instrumentos da Sua vontade. Bem hajam, gays e lésbicas de Israel!


Miguel Portas