| Sindicatos
do mundo, uni-vos!
Miguel Portas
artigo publicado no Sol, 04.11.2006

jeanphilontheroad.typepad.com
Nasceu esta semana a Confederação Sindical Mundial,
unindo duas das três centrais mundiais existentes e ainda
nove organizações nacionais não filiadas,
com destaque para a CGT francesa. De fora ficou o que sobra da
antiga Federação Sindical Mundial – que reúne
sindicatos ligados a regimes de Partido-Estado e ainda sindicalismo
de inspiração comunista em vários países
do terceiro mundo; e a central sindical chinesa que, só por
si, tem tantos ou mais filiados do que a fusão agora anunciada.
A nova confederação representará 166 milhões
de trabalhadores filiados em 309 centrais sindicais de 156 países.
Ela parte de uma constatação muito simples: a globalização
do Capital exige a globalização da agenda do Trabalho. É muito
mais simples de enunciar do que fazer, até porque a mundialização
da economia não tem sede onde se concentra a decisão
política. Mesmo para um sindicalismo de concertação,
falta a instância onde se podem amarrar compromissos. Este
não é, contudo, o maior dos problemas. Pelo contrário,
pode ser, até, uma oportunidade para o desenvolvimento de
lutas supranacionais para a dignidade do trabalho. Difícil é saber
como se pode garantir na era do capitalismo global que “o
Trabalho tenha um valor superior ao Capital”, como proclama
a nova confederação. Ou como colocar em prática “um
sindicalismo de transformação social”, quando
o capitalismo fragmentou as condições de trabalho,
diminuindo drasticamente a capacidade de resposta do sindicalismo.
A principal central portuguesa foi a Viena na condição
de observadora. Dispõe-se à unidade de acção
com a nova confederação sem com ela se comprometer.
Para este meio passo existem um bom e um mau argumento: o bom, é que
deve ser um congresso a decidir sobre a adesão; o mau reflecte
a reserva mental da componente comunista ortodoxa face a uma união
sobredeterminada pelas correntes reformistas. Uma confederação
não limita a independência de actuação
em marco nacional, nem impede um sindicalismo de combate. Por outro
lado, a prova de vida da nova confederação não
dispensa a luta. Mesmo o sindicalismo moderado começa a
perceber que não chegam as mesas de concertação
para obter resultados. “Proletários de todo o mundo,
uni-vos!”, proclamou Karl Marx há século e
meio. Estava cheio de razão. Esta fusão vai na direcção
certa.
Al Jazzira
A televisão mais vista no mundo árabe foi fundada
há 10 anos no Qatar. Chama-se Al Jazzira - a ilha. Com 400
jornalistas, cobriu as guerras do império com mais independência
do que as cadeias de ocidente; desafiou a intocabilidade dos regimes,
dando voz à indignação dos silenciados; no
contraditório, não dispensa nenhuma opinião,
de Washington ao integrismo islâmico. Naquele lado do mundo,
mais do que uma lufada de ar fresco, tem sido uma revolução.
Agora vai passar a emitir em inglês e para ocidente. Só nos
pode fazer bem.
Beirute
Aviões israelitas violam todos os dias o espaço aéreo
libanês. A uma semana das eleições norte-americanas
sobrevoaram de novo Beirute. Antes, haviam feito tiros de aviso
sobre um navio alemão da força internacional, com
a missão de obter informações sobre o tráfico
de armas por via marítima. A força internacional
protesta. Pelo contrário, Washington acha normal. Bush acha
que está em marcha uma tentativa de golpe de Estado do Hezzbollah
porque este reclama que o governo seja alargado... ao principal
partido cristão do Líbano.
Miguel Portas
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