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Ensandeceu

Miguel Portas
artigo publicado no Sol, 28.10.2006

 

 

Na mais protegida das zonas de Bagdade, o embaixador norte-americano no Iraque e ocomandante das forças de ocupação, foram interrompidos durante cinco minutos por um corte na energia eléctrica. Na conferência de imprensa, ficaram como têm estado: às escuras. Por isso, falaram de um horizonte de mais 18 meses de guerra. Colocaram, no entanto, uma data. Não propriamente a primeira.

Nos primeiros cenários, de 2003, eram 18 os meses para instalar quatro bases militares no Iraque e reduzir, a 20 mil, os homens armados. Em matéria de previsão e planeamento, estamos conversados...

A nova promessa segue-se a declarações contraditórias proferidas nas últimas semanas. Um general da força inglesa sustentou mesmo serem mais os problemas gerados pela ocupação do que os resolvidos. As eleições intercalares norteamericanas do próximo mês alimentam a controvérsia, é claro. Os neoconservadores arriscam uma pesada derrota e as línguas soltam-se.

Em perda, G.W. Bush dá, entretanto, sinais de ensandecer. Ei-lo, a meio da semana, e onde a luz não pode faltar, explicando aos eleitores que «a vitória no Iraque é vital para a segurança interna» do seu país. Por que raio? Por que é que uma vitória nas areias é assim tão importante para a «segurança interna», por exemplo, do Kansas? Que armas terá aquela terra desgraçada, da qual os deuses se ausentaram, que ameacem, sei lá, a Virgínia? Ou qualquer outra das estrelinhas da bandeira?

Como não se descortina, Bush desenvolve: se os EUA não ganham, a alternativa é «um império radical da Espanha à Indonésia»! Oh lá lá, isto já é connosco!

Fique o distraído leitor a saber que às portas de Portugal, entre Vila Real de Santo António, Elvas e Vilar Formoso, uma indestrutível fronteira defenderá o Mundo civilizado do novo califado mundial euroafroasiático em gestação nas ruínas iraquianas. O dedo mindinho dizia-me que assuntos de elevado gabarito tinham ocupado a conversa de Luís Amado com Condoleezza Rice. A segunda não chama o primeiro para tomar chá. Não! Ela sabe que, quando o seu chefe garante que «os EUA estão a ganhar e vão ganhar», nem ele acredita nisso. Atenta, cuida do futuro. Luís Amado foi informado do nosso novo devir histórico. Ficou até a conhecer o seu – construtor de muros, guardafronteira e chefe de alfândega nos melhores momentos. A coisa é séria!

Em perda, Bush dá sinais de ensandecer.

 

Extrema-direita no Governo

O primeiro-ministro israelita, Ehud Olmert, chamou ao Governo o partido da imigração russa de extrema-direita, que defende dois Estados religiosamente homogéneos. Alguns colonatos judaicos
dos territórios ocupados seriam reinstalados em vilas e cidades israelitas, entretanto ‘limpas’ de árabes. Medieval.

Os socialistas de Telavive comeram e calaram. E Javier Solana, o homem forte da diplomacia europeia, achou por bem encontrar-se com o chefe da extrema-direita racista, ainda antes do seu nome ter sido votado pelo Parlamento israelita...

 

País basco

Por 10 votos o Parlamento Europeu apoiou o processo de paz no país basco. Foi um passo na direcção certa. A direita fez o que pôde para o evitar, em nome das 800 vítimas dos últimos 20 anos. Se fosse este o critério, todo o mundo viveria em guerra permanente, alimentando todos os dias a vingança da guerra seguinte.

A oportunidade existe e deve ser agarrada com ambas as mãos. No país basco não existe apenas um problema de terrorismo. Há uma questão nacional que só pode ser resolvida por meios democráticos.

 

Miguel Portas