| Ataques
de realismo
Miguel Portas
artigo publicado no Sol, 16.09.2006

De repente, como se antes nada se tivesse dito ou acontecido,
a Europa deu em realista por terras do Médio Oriente. Javier
Solana passou sete horas, sete, a falar com o seu homólogo
iraniano, o senhor Ali Larijani. Garantiu-lhe que não haveria
sanções "enquanto durarem as conversações".
Presume-se, assim, que o alto responsável pela diplomacia
europeia vai mudar de ares, pelo menos durante uns meses. Quanto
a Tony Blair, de partida do número 10 da Downing street,
viajou para o Levante. Em Ramallah pré-anunciou o fim do
bloqueio à Palestina e deu apoio condicional a um governo
de unidade nacional presidido pelo Hamas. Em Beirute esperavam-no
manifestantes e uma irritante jornalista irlandesa. Mas no dia
seguinte, o seu embaixador esclareceu o que Blair queria dizer,
mas não disse: "o Hezbollah não é uma
organização terrorista. Respeitamo-lo como movimento
político, assim como respeitamos profundamente as suas orientações
sociais e civis". A terminar até acrescentou que "os
povos têm direito à resistência"... Finalmente,
em Bruxelas, a comissão parlamentar de negócios estrangeiros
debateu as relações com Damasco, bloqueadas há meses.
Todas as alminhas desejam agora ajudar a Síria e, de caminho,
afastá-la do Irão.
O que mudou para que o que antes era negro pareça agora
branco? Um povo sem exército digno desse nome resistiu a
Israel. Aconteceu. Lá estou eu a defender os terroristas?
Não. Apenas sigo o modo como o primeiro ministro Fouad Siniora,
na declaração de investidura do seu governo em 2005,
definiu a Resistência: "é expressão fiel
e natural do direito nacional do povo libanês a libertar
a sua terra e a defender e proteger a sua dignidade face às
agressões e ameaças israelitas".
Trinta e quatro criminosos e estúpidos dias de guerra inútil
puseram a Europa a fazer contas à vida. Melhor assim? Decerto.
Mas bem melhor seria que as tivessem feito antes. Poupava-se na
tragédia. E ganhava-se em credibilidade. Nem sempre seguir
quem se pensa que ganha sempre é critério de sabedoria.
***
Na Alemanha, o papa criticou a “surdez” do ocidente
ao divino, que nos torna incompreensíveis às “culturas
religiosas do mundo”. Não sei se há Deus demais
ou de menos. Sei que G.W.Bush e Bin Laden o invocam a cada atrocidade.
Mas o que não se percebe é porque usou Ratzinger
a seguinte pérola de um imperador cristão a um intelectual
persa: “Mostra-me o que Maomé trouxe de novo e só vês
coisas más e desumanas, tal como a sua ordem de espalhar
pela espada a fé”. As crónicas rezam que quis
desmontar a violência em nome de Deus. Eu acho que deitou
umas achas na fogueira...
***
“Corrupção no futebol vai até aos juniores” garante
o Diário de Notícias. Mal por mal, que não
haja discriminações. Só espanta que não
tenha chegado a iniciados e infantis, que de pequenino se devem
aprender as virtudes da competição. É o “sistema”.
Tão perfeito, que até conseguiu ficar de fora do
pacto de justiça entre PS e PSD. Irreformável? Há sempre
uma solução radical para a coisa: as duas equipas
passavam a jogar para a mesma baliza. A variante alivia a consciência
da arbitragem e só se teria que comprar o guarda-redes.
Talvez saísse mais barato...
Miguel Portas
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