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A justiça como encenação
Miguel Portas, 20.10.2005
A forca
é demasiado doce para Saddam", jura uma jovem coberta,
que se apresenta como irmã de um dos supliciados naquele
trágico mês de Julho de 1982, na cidade de Dujail.
Para ela, muito compreensivelmente, Saddam deveria "ser cortado
em pedaços e entregue aos tigres do zoológico de Bagdad".
Pelo contrário, um dos iraquianos que assistem, na TV, à
primeira sessão do julgamento, reage ao enviado especial
do Le Monde "Dê- -me o nome de um só país
árabe onde os opositores não sejam sistematicamente
eliminados. A tortura? Praticam-na todos. E os americanos também,
em Abu Ghraib". Não se pode dizer que falte à
verdade?
Nestes fragmentos, dois iraquianos sintetizam a tenaz que se abate
sobre o julgamento do ex-ditador. A jovem não quer justiça,
mas vingança. E o jovem pretende absolvição
sem justiça. Justiça, ou seja, apuramento da verdade
e das suas circunstâncias e responsabilidades, é que
ninguém, por ali, deseja.
As contradições revelaram-se, logo, no primeiro dia
dos trabalhos. O acusador público, em vez de se cingir ao
caso em apreço - o único massacre devidamente documentado,
na opinião de juristas que acompanharam, desde o início,
a preparação do processo -, foi levado pelo entusiasmo,
e acusou o ditador de ser "responsável por dois milhões
de mortos em 25 anos". Saddam deve ter sorrido. Fosse esta
a acusação, e o banco dos réus não teria
espaço para os ditos. Esses dois milhões de vítimas
pesam na consciência não apenas do regime iraquiano,
co- mo no de Teerão, e ainda nas chancelarias ocidentais.
Talvez por is- so o juiz tenha reconduzido a deriva do acusador
ao único caso em apreço?
Há dias, a Arte exibiu um longo documentário sobre
os bastidores deste julgamento. Ouviu todos. O especialista de direito
internacional que esteve na génese deste tribunal especial,
e que depois se afastou; o responsável pela formação
que os acusadores receberam fora do Iraque; o responsável
norte-ameri-cano no terreno, que acompanhou tudo, da preparação
da sala de audiências à investigação
no terreno; juízes e acusadores, sem qualquer experiência
em direito penal; testemunhas de um dos crimes que irão ao
segundo julgamento; e a equipa da defesa, entretanto despedida pela
filha do ditador. É um documento. Devia passar na TV portuguesa,
para explicar como não se deve fazer justiça.
Atenção Saddam merece ser julgado por crimes contra
a humanidade. A questão é "como". No Iraque,
que confirmou a pena de morte? Num tribunal nacional, prepara- do
e instruído por norte-americanos? Com juízes de direito
comercial e acusadores com experiência em pequenos crimes
domésticos? Com uma defesa sem tempo e sem aces-so ao cliente?
Enfim, a lista de incongruências deste tribunal é in-terminável.
Mas todas as pergun- tas vão dar a uma única: porque
não um tribunal internacional penal?
Numa entrevista ao Libération, Cheril Bassiouni, professor
em Chicago e presidente do International Human Rights Institute,
reconhece que "as impressões digitais dos americanos
estão agora por todo o lado". Ele foi o responsável
pela ideia deste Tribunal Especial. Mas não queria esta encenação
da justiça. Queria, vá-se lá saber porquê,
um tribunal que se parecesse com um tri- bunal. Só não
era internacional porque o ocupante não reconhece tal tipo
de instituição.
Washington quis um julgamento onde o réu não tivesse
latitude para puxar das suas memórias. Onde não possa
lembrar os seus apertos de mãos a Rumsfield e a tantos outros,
que, nos idos de 80, lhe venderam armas e compraram petróleo.
Assim, o ditador será enforcado pelo massacre de pessoas
em Dujail. Mas nunca pela sua responsabilidade na guerra Irão/Iraque,
e o seu milhão de vítimas. Porque esta guerra inculpa
o Ocidente e as suas empresas de armamento. O ditador também
não será enforcado pelo modo como reprimiu os xiitas
do Sul, após a derrota na Guerra do Golfo. Porque essa repressão
se fez à vista de um exército norte-americano que
virou costas ao drama humano que então se vivia. E muito
menos será condenado por um dia ter invadido o Koweit. Fosse
esta a acusação, e o réu ainda se podia lembrar
das conversas mantidas com o embaixador dos EUA em Bagdad, nos meses
que antecederam a invasão? Num mundo de mentiras, não
é em Bagdad que esta se revelará.
mportas@europarl.eu.int
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