| DEPOIS DA FRANÇA A HOLANDA
A Europa dos plebeus
Miguel Portas, 02.06.05

A eurolândia
sofreu na Holanda novo revés.
O contraste não podia ser maior. Como
em França, se o tratado tivesse sido ratificado pelo
parlamento, teria 85 por cento de votos a favor.
Os resultados revelam a verdadeira dimensão
da fractura entre a representação e a vontade
popular.
O que se encontra por detrás deste
divórcio político é uma fractura social
exposta: a construção europeia assente no mercado
e na livre concorrência chegou aos seus limites. E
finou-se o arco social que a suportou.
Os analistas podem escrever que em França
o resultado foi "francês". Ou que na Holanda, os de cima
se esqueceram que tinham um referendo pela frente. Podem. Como
os eurocratas podem continuar a fingir que a França não
existe, que a Holanda não conta, e que todas as ratificações
devem prosseguir tranquilamente apesar de se saber que o Tratado,
para entrar em vigor, carece da unanimidade dos 25.
Mas nada disso evita a constatação
de que a ruptura entre "patrícios" e "plebeus" é
brutal e incontornável. Esta é a forma e o modo da crise
da política na Europa.
Gentilmente, os eleitores estão
a avisar os líderes. De momento, dizem simplesmente:
por uma vez, oicam-nos. E mostram-se. São os excluídos,
os jovens e os assalariados.
Se os líderes persistirem no autismo,
o que se segue não vai ser bonito de se ver.
..........
A 16 e 17 de Junho reúne-se o Conselho
Europeu.
A agenda do conclave deveria ter um único
ponto: emergência pela Europa; e um fio condutor: entender
e traduzir os sinais da insubmissão que se expressa nas
urnas.
Se for este o caminho, a Europa ganha. Se não
for, os de cima continuarão a perder e no referendo britânico
selam o seu destino.
Primeira decisão de bom senso: enterrar
o Tratado.
Segunda decisão: abrir um debate sobre
o futuro da Europa que possa concluir pela abertura de
um processo constituinte democrático.
Terceira decisão: rever em alta as Perspectivas
Financeiras para o período 2007/2013, enviando aos povos
um sinal forte de vontade solidária na construção
europeia.
Quarta decisão: arquivar as propostas de directivas
que visam a liberalização dos serviços pela banda baixa
dos direitos e prolongar os Horários de Trabalho para
patamares asiáticos.
Quinta decisão: aproveitar os sinais que os
mercados já estão a enviar ao euro, para colocar
a política monetária ao serviço da retoma das
economias.
Sexta decisão: enterrar o acordo que viabilizou
uma falsa revisão do Pacto de Estabilidade.
Se forem por aqui, provarão que, por
uma vez, foram capazes de ouvir.
O europeismo de esquerda ganhou nas
urnas uma nova responsabilidade. Nos próximos meses deve
ser capaz de construir uma alternativa de projecto à
Europa das políticas liberais. E deve fazê-lo alargando
o campo do não e estimulando a participação dos múltiplos
activismos que se encontraram neste combate por uma refundação
democrática e social da Europa.
mportas@europarl.eu.int
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