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O dia seguinte
Miguel Portas
Artigo publicado no Jornal de Negócios, 25.05.05
Admitamos
então que o Não vence em França no próximo
domingo e que uns dias depois o mesmo sucede na Holanda.
É o caos? A Europa implode?
Não, claro que não. A construção
europeia foi demasiado longe para poder ser posta em causa pelo
chumbo de um Tratado voluntarista.
A 30 de Maio vira-se, isso sim, uma página:
a de uma Europa construída por cima das opiniões públicas
europeias. Nessa segunda feira, as lideranças terão
de encarar de frente este divórcio. Não podem mais
fingir que ele não existe.
Terão que perceber as razões do Não
francês - a recusa de uma Europa liberal muito pouco democrática.
A consequência desta evidência só
pode ser uma: congelamento do pacote das directivas mais gravosas
que estão para aprovação: a da liberalização
dos serviços e a dos horários de trabalho asiáticos.
As lideranças terão ainda de decidir
se prossegue ou não o processo de ratificação
do Tratado. Eis a tentação. Contudo, o Reino Unido
pode fechar esta porta para evitar um novo e definitivo Não
que arrastaria Blair na onda. O bom senso recomenda que não
se marre contra a parede e se dê prova de humildade democrática.
Veremos.
Há ainda a considerar, no imediato, as Perspectivas
Financeiras, de negociação cerradíssima. Paradoxalmente,
é o Não que pode fazer desbloquear um dos factores
de tensão: o chamado cheque britânico. Porque se Blair
puser fim às ilusões dos que querem a ratificação
a qualquer preço, será obrigado a compensar, antecipando
o que, mais tarde ou mais cedo, será inevitável.
E, finalmente, o essencial: a 30 de Maio começa
o debate que realmente nunca se fez em escala europeia - afinal,
que Europa querem os europeus?
mportas@europarl.eu.int
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