| O
outsorcing
Miguel Portas
artigo publicado no Diário de Notícias,
Opinião, 03.12.05
1.
Reuniram-se os ministros da Justiça em Bruxelas. Garante
o nosso representante, António Costa, que analisaram
uma “proposta muito interessante” da comissão
Barroso sobre política de imigração. A
crer no noticiário, a UE debruça-se agora sobre
“uma visão integrada e global” do problema,
que inclui o combate à imigração ilegal,
“canais de imigração legal” e “o
entendimento de que a imigração é uma fonte
de enriquecimento social e cultural da Europa”. Um cândido
diria estarmos no “bom caminho”.
2. Não
estamos. Em nenhum outro domínio, a política europeia
se revela tão cínica como em matéria de
imigração. Vamos aos factos.
Entre Janeiro e Setembro de 2004, segundo declarações
de Rui Marques ao DN, foram concedidos 164 vistos de imigração
legal pelo nosso país. 164! Uma lágrima na quota
de 8 mil e 500 autorizações para imigração
legal, definidas pelo anterior governo, com base numa estimativa
de trabalho destinada a novos imigrantes, que rondaria 30 mil
vagas… Esta é a política real. Uma vergonha.
E um absurdo. No mesmo dossier, Maria Ioannis Baganha, investigadora,
admitia que estivessem a sair do país 40 mil a 80 mil
portugueses por ano…
Espanha e Itália são mais finos. Uns e outros
preferem seleccionar de acordo com a cor da pele. Da América
Latina e dos países do Leste Europeu chegam anualmente
150 mil imigrantes legais aos dois países. De África,
zero.
Imigração à la carte, é também
o que a França de Villepin e Sarkozy se prepara para
fazer em grande escala. Este país recebia, anualmente,
cem mil imigrantes ao abrigo das disposições sobre
reagrupamento familiar e direito de asilo. É precisamente
sobre estes vectores que o governo aperta agora a torneira.
A “nova abordagem” introduz apenas uma variante:
que o Mediterrâneo possa ser franqueado por quem tenha
formação universitária. Ou seja, que a
UE agarre os cérebros do Sul, na exacta medida em que
perde os seus para os EUA…
3. Há
meses, os acontecimentos de Melilla indignaram, e bem, a opinião
pública. Segundo a direita, a culpa seria de Zapatero,
porque este decidira proceder à regularização
de 800 mil clandestinos. Não existe qualquer relação
de causa e efeito. A imigração da África
subsariana até à costa sul do Mediterrâneo
demora meses e, em muitos casos, um a dois anos. Não
obedece a notícias de jornais e televisões.
A tragédia teve razões bem mais prosaicas - policiais.
A criação, na Andaluzia, do Serviço Integrado
de Vigilância Exterior – SIVE – alterou radicalmente
as condições de passagem no estreito de Gibraltar.
Este investimento de 208 milhões de euros começou
a funcionar em larga escala no ano passado. A sua eficácia
é aferida pelas estatísticas. As detenções
nas águas do estreito de Gibraltar passaram, entre 2000
e 2004, de 16.885 para 7.425. Este ano, o sistema funcionou
ainda melhor. As patrulhas marítimas passaram a contar
com novos meios de detecção nocturna, o contributo
de novos países (Portugal incluído) e um substancial
reforço de pessoal. Por outras palavras, o Mediterrâneo
fechou-se, quer aos legais, quer aos ilegais. Não há
qualquer nova e súbita pressão subsariana nas
costas do Magreb.
A sobreconcentração de sem-papéis em Melilla
é a consequência de uma combinação
malvada: o fecho do mar pela Europa, e o reforço da acção
policial por Marrocos, que se acentuou em 2005, obrigando alguns
milhares de sem-papéis que se encontravam nas cercanias
de Tanger e Ceuta a deslocarem-se para Melilla.
Marrocos depositou centenas de desgraçados no deserto
do Sara, sem água nem alimentos. Mas a Europa sabia.
Sempre soube como Marrocos e a Líbia tratam os sem-papéis
– como lhes convém, e sem qualquer respeito pela
dignidade humana. Apesar disso, a Espanha não hesitou
em entregar a Marrocos centenas de desgraçados que faziam
pela vida.
5. A
“interessante” abordagem de Bruxelas já existe:
evitar que haja quem se deite ao mar. Evitar que sejamos nós
a detê-los, que não é bonito. E garantir
que seja o Sul a policiar as nossas fronteiras nos países
deles. Marrocos recebeu 40 milhões de euros para reequipar
a sua polícia com radares, sistemas de comunicações
e material circulante. A Argélia 10 milhões. E
a Líbia entrou no clube dos países “amigos”
a troco de iguarias similares. Chama-se a isto outsorcing.
Há alternativas a este desprezo pela condição
humana. Elas estarão em debate na próxima sexta
e sábado num colóquio internacional que se realiza
na Torre do Tombo, reunindo especialistas e actores sociais
de vários quadrantes de opinião.
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