| Revolta e insucesso
em Paris
Miguel Portas
artigo publicado no Diário de Notícias,
Opinião, 19.11.05, 27.11.05
1.
Uma deputada filipina pergunta ao embaixador
francês "Afinal porque se revoltam os vossos jovens?"
Este responde com desarmante franqueza: "A minha primeira
reacção é dizer-lhe, "não sei".
Não sei mesmo. Eles não pedem nem exigem. Simplesmente,
exibem a sua raiva. Depois de reposta a ordem, temos que saber
ouvir o que eles não conseguem exprimir".
Este diálogo ocorreu em Dublim, num encontro mundial
de parlamentares, sobre políticas de imigração
e integração. A preocupação principal
do embaixador era explicar que "Paris não está
a arder". É, obviamente, a verdade de uma mentira.
Se não está, então porquê três
meses de estado de excepção, ao abrigo de leis
que remontam à guerra da Argélia?? Mas adiante.
A fúria que se manifestou em França - e não
em Londres, Madrid ou Lisboa - levanta problemas bem mais vastos
do que a tentação autoritária de um poder
que se quer exibir. De facto, as condições materiais
de vida nos bairros sociais de Paris estão presentes
em todos os subúrbios das grandes cidades do chamado
1.º mundo.
Essas condições resumem-se numa palavra: discriminação.
Ou em duas: dupla discriminação. A que decorre
da condição periférica dos habitantes desses
bairros; e a que se lhe soma por causa da cor da pele, da estranheza
do nome que se tem ou da religião que se pratica. Os
estudos não se enganam: o desemprego é alto em
França; mas é mais alto nas banlieues,
onde chega a 25 por cento; e nestas pode atingir os 50 por cento
entre os descendentes de magrebinos e africanos.
2. Numa
recente entrevista, Emmanuel Todd sustenta que a França
é vítima do sucesso das suas políticas
de integração. A afirmação parece
tão absurda quanto a do embaixador francês. Mas
o absurdo tem as suas razões. De facto, esta não
é uma revolta de jovens imigrantes. Em 1800 detidos,
só 120 eram imigrantes. Também não é
uma revolta social politicamente enquadrável. É
a explosão de uma minoria de jovens da terceira geração
que vivem encerrados nas suas cités; que abandonaram
o sistema escolar; e que já não aceitam trabalhar
nas condições em que pais e avós o fizeram.
São muito mais franceses do que pensam, até no
modo como preferiram a rua às regras estreitas da "família
alargada" dos parentes. Neles, e na sua violência,
se condensam todos os fracassos das políticas de integração.
Dois modelos têm sido aplicados na inclusão das
comunidades imigrantes e seus descendentes o multicultucultural
e o integracionista. O primeiro, anglo-saxónico, evita
as "misturas" e favorece as identidades de origem,
desde que não ousem ser mais do que isso. A sua tolerância
é o seu limite: a fronteira entre desenvolvimento separado,
gueto e apartheid é finíssima. O segundo, pelo
contrário, aposta na capacidade de o país de destino
ser capaz de integrar quem a ele chega, na base de uma comunidade
de valores e direitos comuns. O seu universalismo é também
o seu calcanhar de Aquiles em regra, integração
é assimilação. Alain Touraine definiu isto
mesmo numa frase: "o nosso republicanismo rejeita as diferenças".
Na óptica do discriminado, nenhum dos modelos satisfaz.
Em certo sentido, a derrota estava inscrita no destino. O mundo
em que essas estratégias se desenvolveram já não
existe. E quanto à mobilidade, os fluxos podem ser mais
ou menos geridos, mas o fenómeno não pode ser
contido.
A pressão cumulativa de todas as mudanças geradas
pela globalização capitalista é brutal.
Nenhum poder público lhes poderia responder com facilidade.
Contudo, a principal razão para o nosso fracasso colectivo
na relação com o "outro" é a
própria crise das políticas públicas. Sempre
que o mercado gera desigualdades - e gera-as todos os dias -,
elas são incapazes de suster a queda nos abismos da vida.
Sob intenso e irresponsável ataque ideológico,
as políticas públicas regridem. A realidade é
que os serviços sociais se debatem não apenas
com a crónica e estúpida carência de recursos,
mas com um mundo onde a mão invisível do mercado
dita as regras e comanda os sonhos.
Tão ou mais importante do que a falta de empregos
nos bairros sociais, conta o imenso fracasso da escola pública
3. O
primeiro argumento decorre da evidência: se o ensino nos
bairros pobres fosse “um sucesso”, os jovens não
seriam atirados, tão cedo, para o mercado de trabalho.
Há uma relação inversamente proporcional
entre a frequência escolar e as taxas de desemprego. “Uma
escola de sucesso” é uma eficaz política
contra o desemprego.
Segundo argumento: o mercado de trabalho, nas nossas sociedades,
encontra-se fragmentado. De um lado, a oferta dos trabalhos
mais duros e manuais dirige-se à procura imigrante, independentemente
da sua qualificação. Do outro, a oferta de empregos
para qualificações médias e elevadas, destina-se
aos mercados nacionais “clássicos”. É
porque o mercado se encontra fragmentado, que não existe
correlação entre imigração e índices
de desemprego. Essa tese, tão cara às direitas
radicais, não encontra fundamento em nenhum país
da Europa.
E a razão porque o índice de desemprego entre
os jovens das periferias é tão elevado, deve-se
à “aliança” entre a fragmentação
do mercado de trabalho e o insucesso escolar. O jovem que foi
expulso do sistema escolar não tem formação
para entrar nos “mercados qualificados”, e tende
a recusar o “mercado dos imigrantes”.
Este fenómeno não é novo. Os portugueses
conheceram-no quando, na década de 60, em França
e na Alemanha faziam – como os magrebinos e os turcos
– “os trabalhos que os franceses e alemães
já não queriam para si”. Como no Portugal
de hoje, são africanos, ucranianos e brasileiros, que
fazem os trabalhos que a “civilização do
sucesso” impele os portugueses a rejeitar. É idiota,
e principalmente inútil, invectivar o povo. Porque este
se comporta de acordo com os padrões de sucesso que o
capitalismo impõe a cada um(a). Assim como são
raros os imigrantes que regressam a casa sem terem “vencido”,
são também cada vez menos os nacionais que aceitam
repetir o destino dos seus pais ou, o que é o mesmo,
trabalharem abaixo das qualificações.
Articulistas de direita responsabilizam o Estado social por
esta situação. Pacheco Pereira escreveu que “a
intensa subsidiação do providencialismo de Estado”
às “populações deprimidas”
gera “expectativas artificiais e um direito permanente
de reivindicação”. Que ele me perdoe, mas
confunde causas e efeitos, além de exagerar. Já
Luciano Amaral acha que a “intensa subsidiação”
não passa de “esmola”. Mas, em compensação,
vai bem mais longe no seu darwinismo social: o welfare state
é, para ele, “um incentivo ao desemprego na segunda
geração”. Por outras palavras, corte-se
no dito, que a malta deixa de malandrar…
4. Seria
bom descer ao real.
A maioria lá se vai arranjando, entre escola e trabalhos
precários. Quem andou a incendiar carros, farmácias
e escolas, foi uma pequena minoria dos que vivem nas “cités”.
E metade fizeram-no, porque não conseguiram romper com
os seus círculos de amizade, e o sistema de “poder
de rua” que representam os bandos. Nada disto é
novo.
O “poder da rua” sempre existiu nos bairros pobres,
mais ou menos ligado às economias paralelas. Esse poder
ergueu nações – algumas bem no goto do pensamento
conservador… - e nele se alicerçaram organizações
sociais e criminais, ditas de “protecção”.
O que importa perceber, é que o Estado social foi, até
hoje, o mais poderoso instrumento inventado para contrariar
a “lei da selva” e limitar o alcance da mais liberal
das economias, precisamente a “paralela”. Ataquem-se
ainda mais os serviços e os apoios públicos, e
vos garanto que, em breve, não haverá polícia
que trate do assunto…
Pior: para estes jovens não há “intensas
subsidiações”. Nem “esmolas”.
Há a escola e pouco mais.
5. Se
hierarquizarmos as aquisições do século
XX, a escola pública encontra-se seguramente entre as
principais. A democratização do acesso ao ensino
alterou em profundidade as relações de poder nas
famílias, os mercados de trabalho, e os níveis
de formação e civilidade. O Mundo era bem mais
cruel antes da escola.
Mas entre a família, a rua e a televisão, a
escola perdeu centralidade. Essa é a sua crise. Uma crise
de lugar.
Não raro, a resposta tem sido a “facilidade”:
melhorar os índices de sucesso escolar por via da diminuição
da exigência. A resposta que vos proponho é outra:
a reinvenção da escola, em particular nas periferias
das grandes metrópoles. Segue e conclui na próxima
semana.
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