| Nova direita
e nova esquerda
Miguel Portas,
28.10.05

Hoje
mesmo, Tony Blair ensaiará a mensagem mil vezes repetida:
ou a Europa se adapta à globalização, ou
desaparece. Ou é “competitiva”, ou está
feita. Este é o ultimatum que quer acelerar as derradeiras
privatizações, concluir a desregulamentação
dos mercados de Trabalho, e diminuir drasticamente os serviços
do Estado social. A ideia é a de que a Europa só
pode sobreviver, se usar as armas de americanos e asiáticos.
E que a crise actual é culpa de antiquadas criaturas
que resistem ao inevitável.
Não há economista do sistema que não
elogie o argumento. Ele tem, contudo, dois “pequenos”
problemas: na China, a liberalização avança
a todo o vapor, porque as populações partem de
níveis salariais baixíssimos, e porque há
um partido dito comunista que aplica a sua mão de ferro
a quem saia da linha. E nos Estados Unidos também avança,
porque Washington tem uma política orçamental
e monetária expansiva, e exporta para o planeta a sua
impressionante divida pública. Na Europa, o preço
deste programa de assalto aos direitos, só pode recair,
integralmente, sobre os que cá estão. A receita
americana e asiática será o canto de cisne da
Europa, tal qual existe e pela qual tantos depositaram esperanças.
Tony Blair não se dá, sequer, ao trabalho de
fazer aprovar no Conselho Europeu o que quer que seja. Faz o
seu número para as televisões, e deixa à
Comissão de Durão Barroso as tarefas penosas.
Esta, que depende de um acordo para as Perspectivas Financeiras
da União, inclina-se respeitosamente. Não percebe,
sequer, que Londres se está borrifando para os orçamentos
comunitários e para os pequenos países de mão
estendida. No Reino Unido, já funciona, em pleno, o modelo
americano. Na ilha de Sua Majestade, os trabalhadores protestam
contra muitas coisas, mas não contra a directiva Bolkestein,
que já lá estava antes do próprio Bolkestein
dela se ter lembrado. Nem se insurgem contra a privatização
dos caminhos-de-ferro, porque esse comboio já chegou
ao destino, de resto em condições deploráveis
para os consumidores.
Tony Blair percebeu o que os eurocratas de Bruxelas e os socialistas
sabem, mas não têm cara para dizer aos eleitores:
que a Europa gripou porque deixou de ter uma força social
empenhada na sua construção. Os anos de ouro da
Comunidade foram aqueles em que os sectores mais racionais das
burguesias nacionais apostaram tudo na criação
do grande Mercado interno. Mas hoje essa burguesia, que se fez
europeia, já não existe. Mundializou-se. O que
sobra na Europa são multinacionais e grandes importadores
e exportadores de um lado, e burguesias nacionais que perderam
o comboio da globalização selvagem e, receosas
do Mundo, se defendem em marcos proteccionistas de âmbito
nacional. Quanto ao povo, ele nunca foi chamado à construção
europeia.
A crise de liderança da Europa é expressão
da ausência de protagonista. É sobre esse “vazio”
que emerge a nova direita blairista. E é porque o vazio
existe, que os socialistas e sociais democratas podem ter votos,
mas não têm políticas. Eles acompanharam
a burguesia que os abandonou. E nessa aliança perderam
a alma que lhes restava. O seu fracasso é absoluto, mesmo
que vençam eleições.
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Enquanto o Conselho Europeu finge que decide, reúne-se
em Atenas o Iº congresso do Partido da Esquerda Europeia,
a que aderiu o Bloco de Esquerda. Nesta nova formação
estão 26 partidos de diferentes tradições
anti-capitalistas. De fora, ficaram os partidos que não
romperam com o estalinismo, e cuja actuação é
essencialmente nacional e soberanista.
O desafio do novo europeísmo de esquerda é o
de responder à “asiatização”
da Europa e, ao mesmo tempo, contrapor à falência
do “realismo” moderado, uma perspectiva de ruptura
e refundação da Europa. A resistência em
marco nacional, sendo necessária, está condenada.
A esquerda precisa de uma alternativa europeia que exprima o
novo protagonismo que emergiu nas ruas contra a guerra, e que
em diversos países resiste admiravelmente à cartilha
do liberalismo económico.
É cedo para dizer se este esforço será
bem sucedido. Mas é já um sucesso que tantas esquerdas
enterrem sectarismos e divergências passadas, e se disponham
à acção em comum. Essa é a exigência
dos que lutam – finalmente, a ambição de
vencer.
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