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Terra queimada
Miguel Portas
artigo publicado no Diário de Notícias,
Opinião, 03.09.05
Foram terroristas? Um
falso alarme? O pânico de multidões em fuga? Ou
a inépcia dos vários serviços de segurança?
Provavelmente foi um pouco de tudo isto e ainda outro tanto
do que ainda não se sabe.
Mas a tragédia da ponte do imã Ali, em Bagdad,
e as suas mil vítimas têm a carga de uma metáfora.
Nada corre bem no mais castigado dos países. Nada. Nem
mesmo uma manifestação de fé.
No mesmíssimo dia em que o Tigre se tingia de sangue,
três condenados por assassínio, rapto e violação
foram executados em Bagdad.
O episódio é premonitório. Ele anuncia
o mais previsível dos horizontes para um país
que não tem como ser. Sabe-se que o representante das
Nações Unidas fez o que era possível para
evitar a sentença. Sabe-se também que o Presidente
da República, o curdo Jalal Talabani, se recusou a assinar
o decreto de execução. Debalde. Sobrou um vice-presidente
xiita para o fazer. Aliás, esta não foi a primeira
pena capital aplicada na era pós-Saddam.
Pode parecer despiciendo, num mundo de execuções
extra-judiciais generalizadas, discutir os limites das sentenças
legais. Não é. A aplicação, ou não,
de sentenças de morte pelos tribunais antecipa um dos
futuros possíveis para o Iraque - aquele onde a sharia
se institui como elemento fundamental de inspiração
das leis do Estado.
Os curdos, que também são muçulmanos,
procuraram evitar que este requisito fosse inscrito na proposta
de Constituição que irá a referendo em
Outubro. Perderam, mas ganharam no que lhes era essencial -
um Estado federal onde possam beneficiar das receitas de petróleo
existentes na sua região. Os curdos abandonam a ideia
de um Estado nacional em troca de uma ampla autonomia no interior
do Iraque. Compreende-se. Marginalizados em todos os Estados
da região, este acordo tem valor de exemplo para a Turquia,
a Síria e o Irão.
Não por acaso, a Liga Árabe reagiu com acidez
ao documento. A sua aprovação potencia as tendências
para a implosão do mapa do Médio Oriente.
Aproveitando a exigência curda, a hierarquia religiosa
xiita, maioritária no Sul, fez aprovar o modelo federal
para todo o país. Nesta opção, os mollahs
dão vazão ao sentimento de marginalização
das tribos do Sul pelo regime de Saddam; mas, principalmente,
jogam sobre o seguro o autogoverno da antiga Suméria
é um recurso em face da imprevisibilidade de um Estado
incerto. Esta aliança de conveniência entre as
montanhas do Norte e as planícies do Sul deixa às
tribos do centro, as únicas sem petróleo, um lugar
menor.
Os sunitas do Centro do país estavam na disposição
de aceitar um Estado unitário com uma região autónoma
- o Curdistão; mas têm tudo a perder com a divisão
do Iraque em três regiões. A sensação
de perda é tanto maior quanto foram eles quem melhor
se apropriou da ideia nacional durante os anos de poder baasista.
Para eles, o federalismo não representa apenas a perda
de capacidade de influência; enterra o próprio
Iraque. Por isso, o "triângulo sunita" se dispõe,
desta vez, a ir a votos como três distritos podem vetar
a nova Constituição, eles jogam nas urnas a sua
sobrevivência. O problema é que, qualquer que seja
o resultado de Outubro, as margens de compromisso se esvaem
a cada dia que passa.
Neste xadrez, a Al-Qaeda tem um único objectivo por
detrás das suas declarações contra o "grande
satã" generalizar a guerra civil entre xiitas e
sunitas. Terra queimada sobre terra queimada.
Quanto às forças estrangeiras, a ocupação
transformou-se num pesadelo. Para lá de tudo o que já
se disse e escreveu sobre a guerra, é evidente que as
tropas já só têm como objectivo justificarem
os líderes que lá as colocaram.
George W. Bush abriu uma caixa de pandora que não tem
como fechar. O federalismo não lhe resolve o problema
do petróleo, não garante a pacificação,
nem evita a extensão da influência iraniana sobre
o Iraque. A fragmentação do país em Estados
confessionais, a certa altura gizada por estrategas em Washington,
muito menos.
Por paradoxal que possa parecer, a única via de saída
digna para o ocupante foi a oferecida pelo "triângulo
sunita". Ironia da História, o Iraque é a
montra de um Império à deriva. Que sejam os de
sempre a pagar pela engenharia é que se dispensava.
mportas@europarl.eu.int
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