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Pelo buraco
da agulha
Miguel Portas
artigo publicado no Diário de Notícias,
Opinião, 27.08.05
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Check point na Faixa de Gaza
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Concluiu-se a retirada
de Israel da Faixa de Gaza e a evacuação de quatro
colonatos marginais na Cisjordânia.
O sucesso da acção nunca esteve em causa. A
maioria da opinião israelita era favorável à
iniciativa; sabia-se que o exército cumpriria sem defecções;
e, do lado palestiniano, a oferta não podia ser recusada.
Daniel Barenboim, durante a visita ao muro que antecedeu um
histórico concerto da sua orquestra multinacional em
Ramalah, sintetizou bem o problema: “a retirada é
boa se for seguida de outras, é terrível se tal
não suceder”.
As dúvidas incidem, todas, sobre o dia seguinte. E são
muitas.
A opção de Ariel Sharom abriu fendas profundas
na direita israelita. Uma competição duríssima,
de resultado incerto, está em curso no partido Likud.
A disputa induz às “compensações”.
Depois da retirada, não é impossível a
intensificação da presença militar na Cisjordânia
e mesmo novas acções de colonização.
Seria absurdo, mas essa é a lógica dos que sustêm
o actual homem forte de Israel. Para António Ribeiro
Ferreira, que no DN traduz, cristalino, esse tipo de posição,
é simples: “A partir de agora não há
lugar para mais recuos. Israel fica na Cisjordânia e na
sua capital, Jerusalém”. E insiste: “A partir
de agora, mais do que nunca, Israel tratará o terrorismo
de forma implacável”. Como se até aqui tivesse
sido a feijões...
No Público, um historiador israelita, Tom Segev, explica
o ponto de vista da retirada: “Sharom é um militar.
Ele olha para o mapa, vê uma fronteira que não
pode defender, e sai. Não temos aqui um estadista (...),
esse não é o seu modo de pensar. É tudo
unilateral, é uma forma de pensar militar, táctica”.
Se ele tem razão – e creio que tem -, então
não há motivos para optimismo.
Ainda no mesmo jornal, o escritor israelita Amos Oz, comentando
o modo como decorreram as evacuações, coloca outra
questão crucial: “Houve muita fúria e ruído,
mas não massacre. Mas será assim quando chegar
a altura de desistir da Cisjordânia e de Jerusalém
Oriental, em troca da paz com os palestinianos?”. Esta
é, de facto, uma das grandes interrogações
de amanhã. Mas exige outra que lhe é prévia:
estarão os dirigentes israelitas preparados para chegarem
a essa dúvida? Likud e Partido Trabalhista estão
preparados? Por vontade própria, não estão.
Empurrados pela comunidade internacional, pelos palestinianos,
e pela maioria do seu próprio povo, talvez. Mas com tanta
condicionante, já se vê que não será
fácil.
Do lado palestiniano as opções também
não são simples.
Não se percebe o drama que cresce em Gaza sem conhecer
aquela língua de terra onde vivem mais de um milhão
e trezentos mil palestinianos. Sobrelotada, sem qualquer viabilidade
económica enquanto não se puder abrir ao exterior,
mal administrada, e presa dos mais variados bandos armados,
é uma imensa prisão de deserdados. O desemprego
atinge metade da população activa. A única
actividade económica digna de registo é a construção
civil. O resto depende das empresas israelitas, que importam
a conta gotas e fixando os preços. A corrupção,
nestas circunstâncias, é endémica, o que
ajuda a explicar a esmagadora vitória do Hamas nas recentes
eleições locais. Mesmo a possibilidade de pescar,
ou abrir um aeroporto, marcam passo atrás das imposições
securitárias de Israel. O preço da evacuação
dos colonatos é, portanto, o gueto. Por isso, o presente
é envenenado. Mas as forças políticas palestinianas
não podiam recusar a oferta dos carcereiros.
De momento, há “tréguas”. Elas podem,
ou não, ser prolongadas até às legislativas
que em Janeiro de 2006 encerram o ciclo eleitoral pós
Arafat. Em parte, as tréguas dependem de Israel - se
retoma ou não a colonização na Cisjordânia.
Mas dependem também da lei eleitoral que o moribundo
Conselho Nacional Palestiniano, o parlamento ainda em exercício,
aprovar. Se for feita por medida para a Fatah, o partido do
Presidente Abu Mazen, não é certo que o Hamas
concorra; e as esquerdas laicas não conseguirão
abrir caminho entre os dois colossos da política palestiniana.
O dilema é difícil para Abu Mazen. Ele quer os
fundamentalistas nas instituições, mas sente-se
“obrigado” a defender o sistema de interesses que
a Autoridade Nacional Palestiniana abriga. Uma escolha errada
levará a nova vaga de militarização da
resistência. É o que sucede sempre que os horizontes
se turvam.
mportas@europarl.eu.int
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