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60 ANOS DEPOIS
A morte obstina-se
Miguel Portas
Artigo publicado no Diário de Notícias, Opinião, 06.08.05
A
guerra estava decidida, mas ainda prosseguia
nas ilhas do Pacífico.
Naqueles lugares do fim do mundo, a maioria desabitados, os
soldados norte-americanos repetiam os desembarques da Normandia.
Caíam como insectos. Mil e duzentos por dia. O cemitério
começava nas areias, varridas pelo fogo invisível
que vinha das orlas das árvores tropicais. Mas, apesar
das perdas, avançavam. Avançavam sempre. Em direcção
a novo inferno, desta vez na floresta. Faziam-se bombardeamentos
antes dos desembarques, mas sobravam sempre inimigos. Batiam-se
até ao último sopro e para lá dele.
Naquele Verão de 1945, os japoneses sabiam que a guerra
estava perdida. Não lhes sobrava réstia de esperança.
Nem na Europa, onde a guerra já tinha acabado.
Apesar disso, resistiam. Recuavam e reagrupavam-se sem qualquer
expectativa de contra-ataque, ou dúvida quanto ao desenlace.
Os feridos eram deixados onde caíam, aguardando a chegada
dos norte-americanos para se fazerem explodir com eles. Até
os mortos eram armadilhados.
Os soldados japoneses não desejavam sobreviver à
derrota do seu país. E queriam levar os vencedores consigo.
Aquele fim de guerra era diferente de todos os outros. Sê-lo-ia
até ao último dia, que a insanidade é doença
que se pega nos confins da razão.
O Estado Maior norte-americano tinha,
desde 1944, a arma que podia pôr um ponto final na guerra.
Cientistas antifascistas, trabalhando febrilmente no projecto
Manhattan, admitiam usá-la contra Hitler. Mas os militares
já tinham os olhos postos na União Soviética
e aguardavam. A obstinação japonesa dar-lhes-ia
a oportunidade do “dois em um”: lançar a
bomba fatal sobre o Japão era, também, um aviso
registado a Estaline.
O grupo encarregue de executar a decisão seleccionou
um conjunto de cidades. Kyoto foi retirada da lista porque tinha
património histórico. Outras saíram porque
a equipa de avaliação de impactos queria estudar
as consequências sobre alvos que nunca tivessem sido antes
bombardeados. Geólogos e químicos pediram cidades
de morfologia adequada onde a bomba pudesse explodir a 600 metros
do solo, maximizando os seus efeitos. Finalmente, era preciso
que o alvo estivesse sem nuvens para que o cogumelo pudesse
ser devidamente estudado.
Só as crianças fizeram a pergunta mais terrível:
porquê duas bombas, quando uma chegava e sobrava para
os objectivos declarados? A resposta, de uma simplicidade aterradora,
é que havia duas bombas diferentes e já agora
comparava-se.
A 5 e 6 de Agosto as primeiras bombas atómicas caíram
sobre Hiroxima e Nagasáqui. O resultado é conhecido:
140 mil civis mortos e um número indefinido de descendentes
dos sobreviventes que carrega ainda nos corpos os sinais da
“punição dos céus”. Mas a guerra
acabava dez dias depois e 1200 soldados, “dos bons”,
deixavam de morrer diariamente nas praias do paraíso.
Quanto ao mundo, esse entrava finalmente na era do armamento
nuclear e na guerra fria.
Pode parecer insensato,
mas há quem sustente que as mortes de há 60 anos
foram um “preço aceitável” pelo fim
da guerra. Quem assim pensa, é tributário da ideia
de que os fins justificam os meios. Este equívoco profundo
marcou, tanto à direita como à esquerda, os anos
da guerra fria. E chancela agora a escalada anti-terrorista.
Escrevo sem hesitação: as bombas sobre Nagasáqui
e Hiroxima foram o mais brutal acto de terrorismo da História
contemporânea. O facto de terem sido lançadas por
um Estado, ainda em contexto de guerra, e em nome da mais nobre
das causas, em nada diminui a barbaridade do acto. Ele prova,
como nenhum outro, que os meios se libertam dos fins e adquirem
vida própria na exacta proporção da violência
que contêm. Hoje, o planeta pode ser destruído,
não uma, mas várias vezes, ao simples toque de
um botão. No código genético das “bombas
dos bons” de há 60 anos inscrevia-se, já,
a arrogância imperial dos vencedores de hoje. E o seu
poder destruidor envolvia uma diferente avaliação
do valor da vida, consoante ela seja a dos “nossos”
ou a dos “outros”.
Assinalar os 60 anos das bombas atómicas tem extrema
actualidade. Não se pode condenar o 11 de Setembro e
diminuir Nagasáqui e Hiroxima. Não se pode deter o programa
nuclear iraniano porque eles são dos “maus”
e manter intactos os arsenais nucleares dos “bons”.
E não se pode combater o terrorismo apunhalando o Estado
de Direito porque os meios, já se viu, além de
vontade própria, são, como as drogas, aditivos.
mportas@europarl.eu.int
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