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CAMPANHA PARA A ABOLIÇÃO TOTAL DE ARMAS NUCLEARES ATÉ 2020

 

60 ANOS DEPOIS
A morte obstina-se

Miguel Portas
Artigo publicado no Diário de Notícias, Opinião, 06.08.05

A guerra estava decidida, mas ainda prosseguia nas ilhas do Pacífico.

Naqueles lugares do fim do mundo, a maioria desabitados, os soldados norte-americanos repetiam os desembarques da Normandia. Caíam como insectos. Mil e duzentos por dia. O cemitério começava nas areias, varridas pelo fogo invisível que vinha das orlas das árvores tropicais. Mas, apesar das perdas, avançavam. Avançavam sempre. Em direcção a novo inferno, desta vez na floresta. Faziam-se bombardeamentos antes dos desembarques, mas sobravam sempre inimigos. Batiam-se até ao último sopro e para lá dele.

Naquele Verão de 1945, os japoneses sabiam que a guerra estava perdida. Não lhes sobrava réstia de esperança. Nem na Europa, onde a guerra já tinha acabado.

Apesar disso, resistiam. Recuavam e reagrupavam-se sem qualquer expectativa de contra-ataque, ou dúvida quanto ao desenlace. Os feridos eram deixados onde caíam, aguardando a chegada dos norte-americanos para se fazerem explodir com eles. Até os mortos eram armadilhados.

Os soldados japoneses não desejavam sobreviver à derrota do seu país. E queriam levar os vencedores consigo. Aquele fim de guerra era diferente de todos os outros. Sê-lo-ia até ao último dia, que a insanidade é doença que se pega nos confins da razão.

O Estado Maior norte-americano tinha, desde 1944, a arma que podia pôr um ponto final na guerra. Cientistas antifascistas, trabalhando febrilmente no projecto Manhattan, admitiam usá-la contra Hitler. Mas os militares já tinham os olhos postos na União Soviética e aguardavam. A obstinação japonesa dar-lhes-ia a oportunidade do “dois em um”: lançar a bomba fatal sobre o Japão era, também, um aviso registado a Estaline.

O grupo encarregue de executar a decisão seleccionou um conjunto de cidades. Kyoto foi retirada da lista porque tinha património histórico. Outras saíram porque a equipa de avaliação de impactos queria estudar as consequências sobre alvos que nunca tivessem sido antes bombardeados. Geólogos e químicos pediram cidades de morfologia adequada onde a bomba pudesse explodir a 600 metros do solo, maximizando os seus efeitos. Finalmente, era preciso que o alvo estivesse sem nuvens para que o cogumelo pudesse ser devidamente estudado.
Só as crianças fizeram a pergunta mais terrível: porquê duas bombas, quando uma chegava e sobrava para os objectivos declarados? A resposta, de uma simplicidade aterradora, é que havia duas bombas diferentes e já agora comparava-se.

A 5 e 6 de Agosto as primeiras bombas atómicas caíram sobre Hiroxima e Nagasáqui. O resultado é conhecido: 140 mil civis mortos e um número indefinido de descendentes dos sobreviventes que carrega ainda nos corpos os sinais da “punição dos céus”. Mas a guerra acabava dez dias depois e 1200 soldados, “dos bons”, deixavam de morrer diariamente nas praias do paraíso. Quanto ao mundo, esse entrava finalmente na era do armamento nuclear e na guerra fria.

Pode parecer insensato, mas há quem sustente que as mortes de há 60 anos foram um “preço aceitável” pelo fim da guerra. Quem assim pensa, é tributário da ideia de que os fins justificam os meios. Este equívoco profundo marcou, tanto à direita como à esquerda, os anos da guerra fria. E chancela agora a escalada anti-terrorista.

Escrevo sem hesitação: as bombas sobre Nagasáqui e Hiroxima foram o mais brutal acto de terrorismo da História contemporânea. O facto de terem sido lançadas por um Estado, ainda em contexto de guerra, e em nome da mais nobre das causas, em nada diminui a barbaridade do acto. Ele prova, como nenhum outro, que os meios se libertam dos fins e adquirem vida própria na exacta proporção da violência que contêm. Hoje, o planeta pode ser destruído, não uma, mas várias vezes, ao simples toque de um botão. No código genético das “bombas dos bons” de há 60 anos inscrevia-se, já, a arrogância imperial dos vencedores de hoje. E o seu poder destruidor envolvia uma diferente avaliação do valor da vida, consoante ela seja a dos “nossos” ou a dos “outros”.

Assinalar os 60 anos das bombas atómicas tem extrema actualidade. Não se pode condenar o 11 de Setembro e diminuir Nagasáqui e Hiroxima. Não se pode deter o programa nuclear iraniano porque eles são dos “maus” e manter intactos os arsenais nucleares dos “bons”. E não se pode combater o terrorismo apunhalando o Estado de Direito porque os meios, já se viu, além de vontade própria, são, como as drogas, aditivos.

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