HISTÓRIA EXEMPLAR: Era
uma vez um arrastão A
jornalista Diana Andringa disseca num breve documentário
a história de um arrastão que nunca existiu
- o da praia de Carcavelos. Ele encontra-se disponível
em www.eraumavezumarrastao.net.
No site encontra-se também uma entrevista ao Comandante
Metropolitano da PSP de Lisboa, Oliveira Baptista, que
fez o que poucas vezes as autoridades são capazes
de fazer - relatar os factos com verdade e assumir a quota
parte das responsabilidades. Exactamente o que não
aconteceu com a generalidade da Comunicação
Social. |
Operação 'Pânico
e terror'
Miguel Portas
Artigo publicado no Diário de Notícias, Opinião, 16.07.05

Só esta semana
vi o documentário de Diana Andringa sobre o arrastão
que nunca existiu. Não eram 500 nem 400, não eram
50 nem 60, teriam sido 20 ou 30 putos que desataram a correr
- e com eles muitos outros - mal a polícia desceu às
areias para pôr na ordem o que não estava em desordem.
Não houve centenas nem dezenas de assaltos. Não
houve, sequer, três queixas por furto. Houve uma. Se é
que há. Contudo, houve dois crimes a mentira e a sua
amplificação mediática. Ambas fizeram de
um incidente um acidente social. Azar dos putos serem pretos.
E se além de pretos fossem muçulmanos, a coisa
ainda acabava em conversa sobre terroristas. Assim foi só
contra "os marginais"...
"Aprendi alguma coisa", confessou a certo passo Oliveira
Pereira, o comandante metropolitano da PSP. Não é
vulgar um chefe de polícia dar a mão à
palmatória, assumir falhas de subordinados no terreno
e dizer que confiou nas fontes jornalísticas que teriam
estado na origem do comunicado policial. Apertado pelo Expresso,
o comandante acabaria por se demarcar do "aproveitamento
político" das suas declarações. Aí
engana-se. A democracia é uma jornalista procurar a verdade
onde os grandes meios creditaram a mentira; um polícia
orgulhoso da transparência na relação com
os seus cidadãos; um site especificamente criado para
divulgar a investigação; e também a posição
de partidos, activistas e personalidades sobre os factos em
questão. O que faltou foi uma comunicação
social capaz de olhar para si. Os cinco minutos iniciais do
documentário são demolidores. Sempre o mesmo entrevistado,
as mesmas fotografias e zero, zero mesmo, de investigação.
Só A Capital escapou a esta vergonha profissional. "Não
houve arrastão, mas podia ter havido e acabará
por haver se não se tomarem medidas." Ninguém
escreveu, mas escrever-se-á. Porque a melhor mentira
é a que mergulha no senso comum.
O País tem desesperados a mais. Eles nunca pensam com
a cabeça, mas ao pontapé. Descobrem o culpado
pela sua desgraça no desesperado mais próximo.
Não responsabilizam a política, porque dela desesperançaram.
O alvo mais imediato desta besta sem culpa ou inocência
é o imigrante. De preferência preto. A sua exigência
mais moderada, a "mão dura". Aqui, o desespero
casa-se com os populismos que invadem a política global.
Depois dos atentados terroristas de Londres, a presidência
britânica tomou freio nos dentes. Esta semana estiveram
vários ministros em Bruxelas. Barroso acompanhou "o
novo consenso" que vai ultrapassar "o impasse europeu"
- a prioridade antiterrorista. A Europa chega à América
pela mão de Blair. Agora, até a vitória
do "não" em França é explicada
pela insegurança ligada aos temas da imigração...
Os reaccionários - este é o termo adequado -
querem mais "Deixem-nos pôr no lugar a nossa hierarquia
de direitos", pediu Charles Clarke aos reticentes eurodeputados
da Comissão de Justiça e Liberdades. Nessa "hierarquia",
o ministro inglês relega para quarto lugar o direito à
privacidade, rompendo o "consenso" actual sobre a
indissociabilidade das liberdades fundamentais. Em causa estão
investimentos tão brutais quanto inúteis em matéria
de controlo de comunicações via Net e telefone.
E a ideia peregrina de um BI biométrico europeu que resolveria
com dinheiro da União a ausência de BI no Reino
Unido... Infelizmente, estas e outras medidas não evitam
um só acto terrorista. Mas constroem a Europa do medo,
intolerante com a imigração e irritada com as
políticas de integração.
Eis porque é tão grave a ausência de reflexão
dos profissionais de comunicação sobre o caso
de Carcavelos. O local e o global articulam-se na cultura mediática
de "pânico e terror". É tramado. Porque
a Europa não é Bagdad, mas querem que acreditemos
nisso. Remar contra a maré, portanto. Deitei em Bruxelas
uma velinha. Esta semana foi votado em comissão o meu
relatório sobre a integração dos filhos
dos imigrantes a partir dos sistemas educativos. Lá se
diz que têm direito a frequentar as escolas independentemente
da situação legal dos pais; e que a União
deve co-financiar uma rede europeia entre escolas que criem
turmas onde se proceda à aprendizagem com recurso a uma
das línguas maternas dos filhos de imigrantes. Para lá,
é óbvio, da língua do país de acolhimento
e da introdução ao inglês. Porque dou notícia
disto? Porque não entra nas agendas de pânico e
terror. E, portanto, não é notícia...
mportas@europarl.eu.int
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