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Crise, evidência e esgotamento
Miguel Portas
Artigo publicado no Diário de Notícias, Opinião, 11.06.05
Há
um ano, as eleições europeias ganhavam o prémio
da abstenção e o Parlamento Europeu, devido aos
deputados dos novos países, acentuava a sua deriva para
a direita.
Um mês depois, a escolha de Durão Barroso anunciava
uma Comissão Europeia de baixo perfil. Fosse porque não
existisse outro, fosse porque os principais governos desejavam
uma Comissão fraca, a eurocracia de Bruxelas, outrora
todo-poderosa, perdia outra vez a partida. Em tempos de crise,
mandam os principais governos e ponto final.
A anterior assinatura do Tratado Constitucional,
longe de contrariar esta linha de fundo, tinha-a selado. Para
conter os efeitos de sucessivos alargamentos a novos países,
as grandes chancelarias desenharam um sistema onde elas e o
Banco Central Europeu detivessem todas as alavancas decisivas
do poder. Neste arranjo, o Reino Unido fixou os limites e aos
mais federalistas entregou-se a cereja do bolo – o novo
Tratado seria uma Constituição...
Há quem hoje se arrependa amargamente
da ousadia voluntarista. Mas há um ano, ninguém,
entre as elites, antecipava as más notícias. Os
segredos e artes do poder em Bruxelas não eram assunto
que interessasse ao povo. Para o cidadão comum, o Parlamento
Europeu era um centro de reformas doiradas e a distinção
entre Comissão e Conselho, uma preciosidade “lá
deles”. Esse mesmo cidadão até sabia que
era nesse “lá” que o essencial se decidia.
Mas preferia haver-se com o seu governo, que estava “mais
à mão”.
Em Portugal, como a Leste, essa leitura era
e é ainda mais enviesada: “Europa” é
o lugar onde primeiro ministro que cá esteja vai buscar
o dinheiro de que precisamos.
Este o quadro em que a ratificação
do Tratado se apresentava como um passeio. Por falta de comparência
do povo ou anestesia dos parlamentos nacionais... O que falhou?
Falhou o povo. O povo não se comportou “como devia”.
Decidiu, ó horror, deixar de ser a variável de
ajustamento das políticas liberais.
A surpresa não estava escrita nos astros.
Mas adivinhava-se no modo como os eleitores vinham punindo os
governos da crise. Depois de Espanha, o ciclo de derrotas eleitorais
só teve excepção em Inglaterra e mesmo
aí se confirmou a tendência. Por outro lado, as
resistências sociais aumentaram significativamente nos
países centrais, proporcionais à gravidade de
um conjunto de directivas em carteira.
Os referendos – que não condenam
os eleitores à alternância – introduziram
a dimensão europeia que faltava neste protesto. Chumbando
as políticas da década de Maastricht, franceses
e holandeses transformaram num pesadelo os referendos que as
elites desejavam como plebiscito à sua própria
legitimidade.
Na última sessão parlamentar de
Estrasburgo aconteceu o inevitável: cada cabeça
sua sentença. Os que, durante anos, bradaram no deserto
contra a arrogância e a indiferença social das
lideranças, pareciam ter acordado noutro planeta. No
parlamento, a crise revelou-se em toda a sua crueza: nem Comissão
nem Conselho têm asas para voar. A presidência luxemburguesa
ainda resumiu filosoficamente a coisa: “esta Europa não
é capaz de fazer sonhar”. Mas o drama é
bem mais rasteiro: não tem líderes à altura
da prova.
Eles não sabem o que fazer ao voto de
França e da Holanda. E no entanto, é a isso que
têm de responder no Conselho Europeu da próxima
semana.
Em primeiro lugar, o destino do Tratado: cancelá-lo
para evitar ulteriores pronunciamentos populares e se salvarem
as aparências; ou dar combate até ao fim, na secreta
esperança de que o rolo compressor dos poderes salve
o Tratado domesticando as opiniões públicas? À
boa maneira desta Europa de mínimos, ainda acabam a optar
pelo mal e pela caramunha - suspendem as ratificações,
mas quem quiser que as continue... Se deixarem esta aberta,
o espectáculo vai ser hilariante. Ainda veremos governos
explicando aos respectivos povos porque se deve ratificar um
Tratado que, tal como se encontra redigido, nunca entrará
em vigor...
O Conselho tem ainda que se pronunciar sobre
as Perspectivas Financeiras da União para 2007/2013.
O dossier já de si era escaldante. Mas sob o impacto
do protesto nas urnas, tornou-se dramático. Sucede que,
para desgraça dos que decidem, a gama das possibilidades
de acordo apenas ilumina como se esgotou o projecto liberal
europeu.
Os governos precisavam de dizer aos europeus
que a União é um projecto de construção
solidária. Mas o que têm para oferecer são
orçamentos entre 1,04 e 1,05 por cento da riqueza produzida
na Europa. Não irão além disso. E, pior,
explicarão aos povos que este acordo prova como a Europa
está viva e bem de saúde.
mportas@europarl.eu.int
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