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A Europa depois da França
Miguel Portas
Artigo
publicado no Diário de Notícias, Opinião, 29.05.05

Escrevo de Bordéus, à saída do meeting final
do Não de esquerda. Quatro mil pessoas escutaram as intervenções
de 15 oradores, sem arredar pé, absorvendo os argumentos
que as podem levar, ainda, aos últimos indecisos. Elas sentem
que podem ganhar. E que ganharão se os que deixaram de votar
por razões de exclusão social se levantarem domingo
para dizerem que existem, que aí estão e que, desta,
o seu peso se fará sentir. É nos pobres e nos desempregados
que tudo agora se joga. E por isso escrevo na presunção
de que a vitória do Não é o mais provável
dos cenários.
No acto de Bordéus intervieram socialistas de esquerda,
verdes, comunistas, esquerda radical e figuras dos movimentos sociais.
Falaram ainda três “estrangeiros” – Paul
Lannoye, belga e antigo líder dos verdes no Parlamento Europeu,
um comité operário basco de uma fábrica há 19
meses em greve e eu próprio. Os organizadores quiseram mostrar
que o seu Não é europeísta e que o debate é sobre
o futuro da Europa. Mas nem seria preciso. O ar que se respirava
era o dos momentos em que a História acontece. Ali, ninguém
faltará ao encontro.
Coisa esquisita, esta do “fazer História”. Há, é claro,
uma dimensão de castigo. O povo de esquerda quer a desforra
sobre 15 anos de políticas liberais. Quer, também,
ajustar contas com os que, em seu nome, se renderam à ordem
liberal. E deseja, evidentemente, ver-se livre da direita que o
governa sem esperar por 2007, o ano das presidenciais. Contudo,
a política doméstica não é o motor
da revolução silenciosa que está a nascer
em França. A tenacidade do Não de esquerda, e o modo
como literalmente apagou o Não soberanista, vem de longe
e extravasa as fronteiras de França.
Começou por ser francesa a revolução que inventou
a democracia moderna. Igualdade, Liberdade, Fraternidade, lembram-se?
Precisamente o que não se descortina no arrazoado confuso
e mal escrito de 448 artigos e dezenas de anexos, a que uns tontos
atribuíram categoria constitucional.
Foi também francesa a Constituinte que inventou a separação
de poderes e o controlo do executivo pelo Parlamento. Dois séculos
mais tarde, nem Constituinte, nem observância dos princípios
fundadores da democracia liberal. Como se a História regressasse
ao século XVIII.
É
verdade que o Não de esquerda é social. Grosso modo,
dois terços dos activos são pelo Não, exactamente
o inverso do que se passa com os inactivos. Mas, por detrás
dele, há um resgate da dignidade que encontra as suas energias
nos fundos esquecidos da democracia. Os franceses perceberam o
que os portugueses apenas pressentem – que lhes deram um
referendo para escolherem entre Sim e Sim. Não é um
segredo de polichinelo. É o que o presidente em exercício
da União veio esta semana explicar quando lhes disse que
teriam de regressar às urnas, caso se enganassem no voto.
Os de cima não percebem, nem quando cavam a sua sepultura...
Há uma Europa moribunda e rasante – a de hoje; e
outra que nasce amanhã.
Não há “plano B”. Este tratado não é renegociável
pela simples razão de que ninguém, “lá em
cima”, deseja reabrir o pesadelo das ratificações.
As lideranças só têm duas opções:
fingirem que a França não existe e que a Holanda,
três dias depois, muito menos; ou entenderem que chegou o
momento de ouvir e acabarão por ter que abrir caminho a
um processo constituinte democrático. Claro que podem arquivar
o Tratado e viver uns tempos com o actual. Mas, mais cedo que tarde,
terão que enfrentar a questão democrática
na Europa.
Quem imporá a clarificação é o actor
esquecido da Europa e que amanhã entra em cena: o povo.
Do Não francês chegar-se-á a
um povo constituinte e multinacional: o mesmo que, contra a guerra
anunciada no Iraque,
se mobilizou por toda a Europa.
Sob o Não francês, um novo quadro político é inevitável.
A base política e social do Não de esquerda vai crescer
em todos os países; as razões profundas desse Não,
aliadas à cegueira das lideranças europeias nos primeiros
dias, terão eco entre os europeístas de esquerda
que, por erro de cálculo ou momentâneo desacerto com
a coragem, apostaram no campo perdedor. Um realinhamento clarificador
e europeísta é inevitável à esquerda.
Do mesmo modo que é inevitável o realinhamento soberanista à direita.
Porque a Europa do tratado já é a Europa dos governos
e da competição de todos contra todos. E é contra
esta Europa que se vai erguer a do programa democrático
e social. As cartas lançam-se amanhã. Irá a
jogo quem perceber.
mportas@europarl.eu.int
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