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Das causas. Da crise. Da política
Miguel Portas
Artigo publicado no Diário de Notícias, Opinião,
14.05.05
Não
faço ideia do que é que o Bloco terá feito
a Raul Vaz. Sinceramente não sei. Mas o editorial que ele
assinou na passada quinta só é explicável por
aquele tipo de inteligência emocional a que habitualmente
chamamos ódio. Ódio puro e duro. Isso pode acontecer
num artigo de opinião. Num editorial, mesmo assinado, pergunto-me
se não seria dispensável...
Uma boa crítica ou uma disputa agreste sobre ideias representa
sempre um estímulo. Mas o que Raul Vaz fez não tem
nada a ver com isso. O que ele fez é feio que se farta. Parte
do preconceito de que o Bloco é justiceiro e isso é
problema seu. Mas em seguida atira-se ao dito por, durante 24 horas,
ter ficado calado sobre o processo que envolve ex e actuais dirigentes
do CDS, o que é mentira, uma vez que foi emitida uma tomada
de posição. E finalmente, conclui que o Bloco se normalizou
- sem que se perceba, então, porque continua tão vivo
o seu ódio...
Só para chatear, tinha o Raul Vaz acabado de destilar, e
logo surge a notícia de que eu - pelos vistos justiceiro
sobrante - tinha assinado uma moção de censura para
obrigar Durão Barroso a explicar-se no Parlamento Europeu
que o elegeu.
Onde reside a desonestidade? No facto de o editorialista omitir
que o Bloco nunca se pronunciou sobre o mérito de processos
em alçada da Justiça, a não ser da óptica
das medidas políticas que entende necessárias para
evitar que se acumulem suspeições sobre o exercício
do poder. Foi aliás esta a razão que nos levou, por
uma vez, a criticar métodos de investigação
- quando se soube que até o PR estava a ser escutado.
Não há um só caso entregue à Justiça
que tenha merecido um comentário que pudesse induzir nas
pessoas qualquer julgamento de valor antes de feita a prova e concluído
o julgamento. Um só.
Mais ao invés, existem inúmeras provas de como não
alinhamos em linchamentos na praça pública. Defendemos,
outrossim, o afastamento de cargos públicos de pessoas envolvidas
em processos, mas isto nada tem a ver com qualquer inversão
quanto à presunção de inocência. Basta
olhar para o comportamento do Bloco no caso Casa Pia. Mas há
exemplos bem mais recentes. O último foi quando, há
uns meses, veio a lume o caso das férias de Durão
Barroso. Sempre disse que não me parecia motivo para escândalo,
mesmo sabendo que os funcionários europeus estão impedidos
de aceitar ofertas de valor superior a 150 euros. Quando muito,
a mais elementar prudência recomendaria férias pagas
e não oferecidas. O que na altura acrescentei explica a decisão
que tomei esta semana: que só se justificaria levantar a
questão se se viesse a comprovar que o armador grego tinha
financiamentos comunitários pendentes de decisão.
O problema não era, portanto, o financiamento. Nem as férias.
A questão decisiva era e é a de saber se, existindo
pendentes, as férias passariam, objectivamente, a poder ser
consideradas como um "sinal" para serviços eventualmente
temerosos. Uma vez mais, a prudência recomendaria férias
em qualquer outro lugar.
Neste contexto, a moção de censura surgiu como o
único instrumento susceptível de obrigar Durão
Barroso a explicar-se ante a câmara que o elegeu, depois da
conferência de Presidentes ter decidido em sinal contrário.
Não há, em tudo isto, grama de justiceirismo. Há,
ao invés, uma decidida orientação política
de defesa da transparência das instituições
contra o populismo.
Entretanto, novas informações vieram a lume indiciando
uma história distinta. Há, de facto, uma decisão
da Comissão, datada de 22 de Setembro, que viabiliza um financiamento
do Estado grego a um estaleiro de que o armador é accionista.
O dinheiro não é comunitário. E o procedimento
da Comissão, de acordo com as informações disponíveis,
tem simples natureza administrativa os subsídios estatais
a sectores económicos carecem de verificação
exclusivamente na óptica do respeito pelas regras da concorrência.
Esta informação para mim chega, apesar de manter
rigorosamente a mesma posição política sobre
as reservas que os líderes políticos devem observar.
As férias do presidente da Comissão revelam amadorismo
e ponto. Um pecado bem menos grave do que as políticas que
prossegue.
À luz das informações disponíveis,
assinei. O esclarecimento seca o motivo da moção.
Pode concordar-se, ou não, com este tipo de atitude política.
Não se deve é fazer como Raul Vaz torcer factos e
recorrerà mentira factual para provar uma tese. Creio, aliás,
que este artigo é o seu melhor desmentido.
mportas@europarl.eu.int
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