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A Europa e o dilema francês
Miguel Portas
Artigo publicado no Diário de Notícias, Opinião,
16.04.05
O salão, com as suas colunas, veludos e doirados
foi preparado para receber 80 jovens cuidadosamente seleccionados.
Eles representariam, num directo televisivo, o "povo"
no Palácio da República. O "povo do futuro",
o que mais teria a ganhar com a Constituição para
a Europa. Durante duas horas, esse povo interrogou o Presidente.
E suspeito que este não convenceu.
À mesma hora, no Zenith de Paris, os comunistas abriam a
todas as sensibilidades do "não" de esquerda o
meeting que tinham marcado para esse dia. Casa cheia para ouvir
Marie George Buffet pelo PCF; Mélenchon, socialista; Besancenont,
trotskista; Sarre, republicano de esquerda; Francine Bavay, verde;
ou José Bové, Yves Salette e Nikonoff pelos movimentos
sociais, entre três dezenas de oradores. E nestes, dois dos
jovens que foram afastados da selecção de quantos
se iriam encontrar com Chirac no grande salão...
A mês e meio dos votos, o objecto da polémica é
um best-seller editorial e o debate é popular. Por cá,
o tema é marginal. Mas desengane-se quem pense que assim
continuará se o "não" vencer.
E pode vencer. Porque pode, Chirac entrou na liça, recebendo
um povo seleccionado. E porque pode, preferiu esse número
mediático a um debate com contraditório.
Sucede que o "número" com os jovens acabou por
ser sintomático da ansiedade francesa. O que se viu foi um
Presidente didáctico, mas à defesa. As perguntas acabaram
por reflectir o profundo mal-estar que atinge a sociedade. À
maioria das questões, Chirac respondeu com um "mas isso
não tem nada que ver com a Constituição".
E nas outras, a sua preocupação foi pedir aos franceses
que não tivessem medo do futuro. Poucos momentos televisivos
ilustraram tão bem o divórcio entre as ansiedades
populares e o discurso político dominante nas elites. Naquela
sala estiveram, por momentos, dois mundos o "de cima",
paternal, transmissivo, explicando aos "de baixo" que
a vida não corre assim tão mal e, com mais do mesmo,
poderá ser melhor; e os "de baixo", invocando a
realidade das suas experiências de vida para duvidarem das
promessas de papel. Chirac não conseguiu desfazer esta impressão.
Nem conseguiu ser convicto na "missão impossível"
que tinha: mostrar-se europeu de esquerda, "social", quando
o Presidente que a França conhece é o do liberalismo
dentro de fronteiras. Chirac não conseguiu encontrar a "justa
medida" desta equação. Porque ela, simplesmente,
não existe.
A procissão ainda vai no adro. Mas as sondagens não
enganam. O "sim" partiu com 40 pontos de avanço.
Mas os últimos 15 estudos dão, consistentemente, entre
51 e 55 por cento ao "não". Mais significativa
é a sua decomposição geracional o "sim"
só ganha entre os muito jovens e os mais idosos. No meio,
nas idades do emprego, ganha o "não". E este cresce
à medida que aumenta a insegurança no trabalho. Diferentemente
do referendo de Maastricht, o que pesa são as razões
sociais e não as da grandeza perdida da França. E
mesmo onde estas duas pulsões se cruzam, o discurso dominante
que exprime o mal-estar, não é a saudade de Joana
d'Arc ou os malefícios da imigração, mas a
defesa dos serviços públicos "à francesa".
Por outras palavras, o que decide o referendo não é
a Turquia, mas a directiva da liberalização dos serviços
no espaço europeu - usando jargão eurocrata, a "harmonização"
por cima ou por baixo.
Neste momento, o "sim" resume-se a dois argumentos fortes:
o "não" representa a incerteza e o enfraquecimento
da França na União. Todas as outras razões
- que o tratado, por exemplo, salvaguarda o modelo social europeu
- pura e simplesmente não colam à vida. Eis, então,
o paradoxo: tendo que combater a ansiedade social do presente, o
"sim" acaba a pedir um voto de medo, pela negativa; e
devendo afirmar o seu europeísmo, esgota-se num nacionalismo
quase provinciano.
A percentagem de indecisos é ainda grande. O "sim"
oferece um cenário que se conhece, mas não se deseja;
o "não" propõe um horizonte incerto contra
a perpetuação do presente. Num país de tradição
submissa, o resultado seria simples. Mas a França levanta
periodicamente o seu inconformismo. Pode acontecer o que os líderes
europeus mais receiam - terem que pensar no dia seguinte...
A cegueira de Bruxelas pode ter, a 30 de Maio, encontro com o destino.
Ou percebe que muito tem que mudar, nem que seja para que os mesmos
continuem a mandar; ou finge que nada aconteceu e contaminará
de inconformismo francês toda a Europa "de baixo".
A "incerteza" do "não" são duas
magníficas certezas: a travagem do plano liberal e um extraordinário
sobressalto democrático. Numa palavra, a transformação
dos "consumidores" de Europa em protagonistas da sua refundação.
mportas@europarl.eu.int
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