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O elogio do sacrifício
Miguel Portas
Artigo publicado no Diário de Notícias, Opinião,
02.04.05
No momento em que escrevo,
o estado de saúde de João Paulo II é muito
precário. O eclesiástico das más notícias
já se encontra em Roma e, a 31 de Março, foram dados
os últimos sacramentos. Mesmo que o Papa recupere momentaneamente,
a doença de Parkinson avançou o suficiente para que
o destino siga as leis da vida. Nesta circunstância, hesitei
em escrever. Estas linhas serão sempre interpretadas como
as de um texto fúnebre avant la lettre. Corro, no
entanto, o risco. Porque é ainda em vida que posso escrever
com franqueza sobre a ambivalência que a figura deste Papa
me suscita.
Primeiro, o aviso como sabem, não sou cristão. Recorro
a uma frase que Karol Wojtyla proferiu em Roma, na viragem do século:
"Pela primeira vez na História da Humanidade, há
um homem que vive como se Deus não existisse: o homem europeu."
Eu pertenço a esse homem. E no entanto a este homem nem João
Paulo II nem o seu Deus são indiferentes.
Segundo, a advertência apesar de ateu, penso que a religião
não é uma questão exclusiva do foro privado
de cada um(a) dos seus praticantes. Deus - o deus que cada crente
faz seu - é privado. Mas a religião é uma invenção
humana. A mais perene e poderosa delas. Para o pior e o melhor,
só pode existir no espaço público. A necessária
separação entre Estado e religião não
é a remissão desta última a qualquer "gineceu"
dos tempos modernos. Por dois motivos sucessivos: porque pode a
religião recuar entre o Homem, nomeadamente o europeu, mas
nem por isso a religiosidade diminuir. E porque a religião
é uma história milenar de poder. A importância
de João Paulo II é, aliás, a que decorre de
uma marcante intervenção no espaço público
ao longo de um quarto de século. Marcante e coerente, acrescente-se.
A citação a que recorri define a preocupação
central deste Papa. Dela decorre todo um programa evangélico
e político. O fio invisível que liga o seu anticomunismo
dos primórdios à actual recusa da guerra preventiva,
é uma leitura preocupada e angustiada sobre os tempos modernos
que prescindem de Deus. E é essa difícil relação
com o processo de laicização das sociedades ao longo
do século XX que igualmente explica o seu conservadorismo
em matéria de hábitos. Ou a defesa das prerrogativas
indevidas que a Igreja ainda mantém em muitos países.
As posições antiquadas que a instituição
continua a ter sobre preservativo, aborto, escolha sexual ou até
o lugar da mulher na própria Igreja não a ajudaram
particularmente. Nem o facto de a hierarquia continuar a pensar
que os critérios morais que reclama para os seus devem ter
força de lei para todos.
Não partilho do diagnóstico. Não é
a Igreja que está bem num mundo que piora. Ao contrário,
julgo que a Igreja precisa de mudar para que o mundo melhore. Mas
sei reconhecer a mudança onde existe. Em particular nos últimos
anos, João Paulo II teve a coragem de desenvolver uma crítica
sistemática da guerra. Chamou insistentemente a atenção
para as injustiças geradas pela civilização
individualista do capitalismo. Teve a lucidez de contrariar quantos
queriam - e querem - levar o mundo para um real choque de tradições
civilizacionais. E assumiu uma posição muito digna
sobre os fenómenos da imigração, ao arrepio
do cinismo das políticas dominantes. Este legado é
inestimável. Porque ao longo da História da Igreja
não foram muitos os Papas que puseram as pombas brancas a
voar na Praça de São Pedro. Mais que o seu diagnóstico
sofrido sobre a vida, conta o modo como se entregou ao seu mundo.
Ele é "o incansável". Mesmo na doença,
e principalmente nela, assume, até ao último suspiro,
o rosto do sacrifício. Há algo de "desumano"
- ou "sobre-humano" - nestes dias finais, na voz que se
esvai e na janela que fala, silenciosa.
Uma igreja mais gentil teria convencido o seu Papa à resignação.
Mas a insistência deste é um epílogo que entendo
- à altura do desafio que a si próprio se atribuiu.
É o elo que, simbolicamente, une a sua missão ao momento
fundador da tradição cristã. Que tal ocorra
em plena quadra pascal apenas acrescenta força à obstinada
vontade dos últimos dias. Respeito e admiração,
portanto. Até no adeus foi consistente com a sua vida.
mportas@europarl.eu.int
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