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Quando
os tontos falam do que não conhecem
Miguel Portas
Artigo publicado no Diário de Notícias, Opinião,
12.03.05
Estrasburgo,
8 de Março de 2005: enquanto um milhão de
libaneses - em quatro milhões de habitantes - se manifesta
em Beirute respondendo a uma convocatória do Hezbollah, o
Parlamento Europeu debatia uma resolução sobre os
acontecimentos. A posição europeia ainda tinha alguma
prudência. Alinhava pela Resolução 1559 do Conselho
de Segurança das Nações Unidas - que exige
o abandono imediato e total das forças sírias para
as fronteiras do seu país - mas evitava "massacrar"
Damasco ou incluir o Partido de Deus na lista das organizações
terroristas. Mas a direita parlamentar, alinhada pela posição
israelo-americana, insistiu e conquistou os liberais para ela.
Dois dias mais tarde, amarrava também os socialistas a um
texto onde se insta a Síria à abstenção
de qualquer ingerência nos assuntos do Líbano (como
se fosse só ela...) e se exigia (uma vez mais, só
ela...) que cessasse o seu apoio "às actividades do
Hezbollah e demais organizações terroristas".
E com esta formulação se deu o passo para uma futura
inclusão dos fundamentalistas na lista antiterrorista.
A esquerda do PE, que apresentara uma resolução própria,
clara no apoio ao movimento que exige a plena soberania do Líbano,
mas igualmente responsável na recusa de diabolizar a Síria
e o Hezbollah, encontrou-se, no fim dos votos, ante o dilema de
avalizar uma má resolução - para não
ser acusada de dar cobertura ao Hezbollah - ou ter a coragem de
contrariar um texto que cola a Europa à ofensiva norte-americana
na região. Escolhi a segunda opção. Com falsas
acusações, posso bem; com quem, irresponsavelmente,
quer lançar o Líbano na sua segunda guerra civil,
é que não estou seguramente.
A política no mundo árabe raramente é o que
parece. E no Líbano muito menos. Por isso aqui seguem umas
notas adicionais de viagem às hipocrisias da política
internacional.
Beirute, 20 de Fevereiro de 2002: o início
da invasão do Iraque está por dias. Na capital do
Líbano, milhares de pessoas ouvem o líder do Hezbollah
provocar os dirigentes árabes "Não permitam que
os franceses sejam mais árabes que nós!" Ele
referia-se à posição francesa ante a guerra
anunciada. Passaram dois anos e, agora, uma viagem de G. W. Bush
ao Velho Continente. Os dois lados do Atlântico fizeram as
pazes e o Líbano fez parte do acerto - é o prémio
outorgado a Chirac, em compensação do alinhamento
de Paris contra Damasco.
Ironias no exacto momento em que as tropas da coligação
internacional, há 15 anos, livravam o Koweit dos tanques
de Saddam, os EUA cobriam os acordos de Taeff, que punham termo
à guerra civil consagrando a tutela militar síria
sobre o Líbano. A entrada de Damasco na coligação
dos libertadores selava-se com uma ocupação...
Mudanças, portanto. Mas Beirute deve estar exactamente como
a vi, há dois anos. Esburacada ao longo da sua avenida central,
autêntico museu das feridas de uma guerra civil onde todos
lutaram contra todos; elegante na marginal, em tributo à
cultura ocidental que por ali passou; e confusa, pobre e paupérrima,
consoante se penetre no interior da cidade sunita, xiita ou palestiniana,
e por esta exacta ordem.
No meio, esventrado, está o centro da cidade, onde o primeiro-ministro
assassinado, Rafic Hariri, aplicou em imobiliário de luxo
a inesgotabilidade dos seus recursos financeiros, um dia adquiridos
à sombra da asa protectora do então príncipe
saudita, Fahd Abdel el- -Aziz. Até aqui tudo normal. Sucede
que, além de rico entre os ricos, Hariri era primeiro-ministro
e usou os meios do frágil Estado libanês para beneficiar
a megalomania de uma reconstrução privada. Entre 92
e 96, conseguiu, aliás, a proeza de sextuplicar a dívida
pública do país sem que um só pobre, por causa
disso, tivesse deixado de o ser...
Tudo na mesma? Não. Os cedros ocuparam as ruas. Drusos e
cristãos maronitas aproveitaram a circunstância do
crime para lançar um movimento pacífico pela restituição
da soberania ao país. Irmãos inimigos, demitiram o
Governo sem banho de sangue. O Hezbollah esperou para exibir, não
as armas, mas a sua força. Sábio, não exige
nem "um homem, um voto", nem o poder absoluto que o jogo
democrático lhe daria. Contentou-se em demonstrar porque
deve tudo voltar aos acordos interconfessionais...
Colocar o Partido de Deus na lista antiterrorista é encostar
os pobres à parede e lançar o país na fogueira
da guerra e de nova intervenção "salvífica".
Não seria mais sensato exigir à França e aos
EUA que façam exactamente o que reclamam da Síria?...
mportas@europarl.eu.int
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