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Memória
de uma Europa ausente
Artigo publicado no Diário
de Notícias, Opinião, 29.1.05
A
Europa chegou ao momento das grandes decisões.
E Portugal também, embora disso não suspeite. Em causa
estão seis dossiers dois documentos de estratégia
- a ratificação do Tratado Constitucional e a revisão
da chamada Estratégia de Lisboa; e quatro instrumentos de
política interna - a revisão do Pacto de Estabilidade,
a negociação das Perspectivas Financeiras da União
para 2007/2013, a directiva de liberalização dos serviços
e a alteração do horário máximo de trabalho.
Se a ortodoxia dominante vencer em todos os tabuleiros,
o projecto europeu afastar-se-á, por muito tempo, de gente
de mais; e as expectativas de as periferias da União convergirem
com o centro esfumar-se-ão. Quem quiser discutir seriamente
o futuro deste país, é por este pacote que deve começar.
Não seria mau que o jornalismo e o comentário, lestos
a derramar sentenças sobre a "classe política",
a obrigassem a pronunciar-se sobre as políticas que, de fora,
nos "destinam". O que se joga realmente?
O poder na União, em primeiro lugar. Bem
ou mal, o tratado fixa uma arquitectura política cujo centro
é o Conselho Europeu e, neste, reforça o poder de
voto de um núcleo duro constituído pela Alemanha,
a França, o Reino Unido e a Itália. Bem ou mal, a
Europa do Tratado fez-se pela medida aceitável por Blair.
O eixo franco-alemão e a generalidade dos socialistas e verdes
"compraram" esta versão governamentalista da Europa.
Dependente da unanimidade dos governos para a sua projecção
externa, ela será inexistente se divergente dos EUA; e irrelevante
quando alinhada. Mas, ao invés, tem capacidade interna, porque
solidamente ancorada na ortodoxia que se traduz na parte económica
da Constituição.
Portanto, a competitividade, em segundo lugar. A
Estratégia de Lisboa, agora em revisão, é um
fracasso absoluto. Atribuída pela propaganda a Guterres,
é, na realidade, um produto de Blair e Aznar. Em 2000, ela
anunciava que, a dez anos de vista, a União teria a economia
"mais competitiva do mundo"... O "desígnio"
assentava em quatro pilares - liberalização, conhecimento,
coesão e sustentabilidade ambiental - e atribuía aos
governos a responsabilidade de lá chegarem. Como era previsível,
eles só levaram a sério o primeiro pilar. Os outros
não "compaginavam"... nem com a manutenção
do Pacto de Estabilidade, nem com a falta de ambição
da política orçamental da comunidade. Conhecimento,
ambiente e coesão "custam" investi- mento público
europeu e pressionam os défices para cima...
A meio do calendário, Barroso em Bruxelas
e Sócrates em Lisboa agarram-se a esta estratégia
de papel. Não seria pior que falassem verdade.
A liberalização e o pacto têm
tido um impacto desastroso sobre o emprego. A revisão deste
último, hoje em análise, não mexe na filosofia
que lhe preside.
Na realidade, o emprego continua a ser uma variável
dependente da estabilidade dos preços. E o mesmo se pode
dizer da política orçamental europeia. Seis governos
marcaram os limites o Orçamento comunitário para 2007/2013
não pode ir além de 1% da riqueza criada na União,
dizem. Apesar de nesta morarem dez novos inquilinos e quatro se
encontrarem em fila de espera, a ortodoxia insiste na redução
do peso do financiamento europeu aos países. Ora, como não
se fazem omeletas sem ovos...
Mas isto não é tudo. Em agenda está
o alargamento do horário máximo de trabalho de 48
horas para mais de 65! Onde não existir convenção
ou representação colectiva que tal autorize, a asiatização
pode fazer-se por mero consentimento do trabalhador individual!
Conhecida que é a posição do PSD e do PP -
a favor -, que diz José Sócrates? E que dizem, todos,
sobre a directiva que na circulação de trabalhadores
regula os seus direitos, não pelos do país de destino,
mas pelos do país de origem?
Discuta-se por cá o que se quiser. Entretenha-se
o povo com crónicas de maldizer. Mas, um dia destes, o "modelo
social europeu" será uma história que os nossos
pais um dia contarão aos nossos filhos. Assim será,
se "governabilidade" e "mudança" não
forem mais do que a vã tentativa de moderar este destino.
mportas@europarl.eu.int
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