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A prioridade
Artigo publicado no Diário
de Notícias, Opinião, 13.1.05
Infelizmente,
à catástrofe do tsunami asiático outras se
seguirão. Porque a natureza tem vontade própria. E
porque o capitalismo introduz uma lógica predatória
da natureza, que agrava as consequências destrutivas das catástrofes.
Poucas vezes uma tragédia
natural ilustrou tão bem a urgência de um novo modelo
de desenvolvimento - mais equilibrado entre Norte e Sul; mais respeitador
da natureza e dos obstáculos que ela mesma ergue à
sua violentação; e mais razoável na exploração
turística das regiões costeiras.
As sucessivas visões do apocalipse
nas televisões iluminaram, contudo, o outro lado desta humanidade
tantas vezes irresponsável, ou simplesmente desinformada:
uma espantosa cadeia de solidariedades. É daqui que a política
deve partir. Do exemplo. E exemplarmente.
Alguém disse, com razão,
que esta tragédia deveria ser o 11 de Setembro para os pobres
do mundo. Ou seja, que os poderes mundiais, e em particular a Europa,
não podem continuar a destinar à segurança
e ao combate antiterrorista milhares de vezes mais do que o que
destinam à prevenção e ao combate à
fome e à doença. É disto que agora se trata.
Ou deveria tratar.
A Comissão Europeia iniciou
bem a sua resposta à tragédia. Em poucos dias libertou
23 milhões de euros para as primeiras operações
de ajuda humanitária. E na próxima terça-feira
espera-se a confirmação de uma segunda tranche de
cem milhões de euros.
Entretanto, a Comissão adiantou
o compromisso de outros 350 milhões de euros para a fase
que segue à ajuda humanitária a reconstrução.
Aqui começam os problemas.
Feito o anúncio, ficou-se a saber que 200 desses milhões
precisam da confirmação, incerta, do Conselho dos
25. E que 150 milhões serão reprogramações
de investimentos de cooperação já antes decididos
para a Ásia. Ou seja, «dinheiro velho». Durão
Barroso explicou que isto permite a sua libertação
rápida. Mas há todas as razões para recear
que se tape de um lado o que se vai destapar de outro. E não
só.
O último Conselho recusou
uma proposta do comissário Louis Michel para aumentar o objectivo
financeiro das ajudas ao desenvolvimento. Por outro lado, os países
ricos não quiseram ir além de uma moratória
sobre a dívida externa dos países atingidos pelo tsunami.
É inevitável a comparação no Iraque,
eles perdoaram 80 por cento da dívida... Porque terão
os países da tragédia que pagar mais em juros da dívida
do que o que receberão para acções de reconstrução?
Porque será que nem ante a maior das tragédias, a
culpa dos ricos deixa de ser avara?
Não colhe o argumento da
escassez de recursos. Porque a Europa pode ter melhores prioridades;
e porque é possível encontrar novos recursos. Em escala
mundial ou europeia, pode destinar-se ao objectivo do combate à
fome e à pobreza uma taxa marginal sobre as transacções
financeiras. No limite, até sobre o comércio de armas,
como sugeriram Lula e Chirac...
Por outro lado, há investimentos
que são poupanças. Uma força europeia de protecção
civil, de resposta rápida, pode ajudar a prevenir além
de remediar. Articulada com os sistemas nacionais de protecção
e com a experiência das ONG, impulsionando sistemas de educação,
formação e informação, pode ser o contributo
maior da Europa para os esforços de coordenação
multilateral da ONU em situações de tragédia.
Por aqui, por um peace corps - e não pelo aumento
das despesas militares -, passa também a ambição
de um projecto europeu que se queira útil ao mundo.
mportas@europarl.eu.int
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