|
Aldrabice
Artigo publicado no Diário de
Notícias, Opinião, 25.11.2004
É
o mínimo que se pode dizer da pergunta sobre a chamada Constituição
Europeia. Não é preciso ser bruxo ou particularmente
elaborado para saber que só existe uma pergunta razoável:
«Deve Portugal ratificar o projecto de tratado que institui
uma Constituição para a Europa?» Fácil,
não é? Pois parece que não.
PSD, PS e PP quiseram arrevesar
e saiu aquela coisa extraordinária: «Concorda com a
carta de direitos fundamentais, a regra das votações
por maioria qualificada (uff), e o novo quadro institucional da
UE, nos termos da Constituição para a Europa, (cof,
cof)?»
A primeira reacção
é de hilaridade. Três perguntas numa só e sem
que dela(s) se possa, sequer, tirar uma consequência política
indiscutível. Devem estar a gozar connosco, pela certa.
A seguir vem a indignação.
Porquê aquelas três? Porque são mais importantes
que outras igualmente suscitadas pelo tratado? Porque é a
carta de direitos fundamentais - para os quais não há
instrumentos de política social - mais importante do que
a estratégia de defesa, que inclui o aumento das despesas
militares? Porque é a maioria qualificada mais importante
do que o controlo democrático do Banco Central Europeu ou
a proibição de emissão de dívida pública,
sem a qual a União não tem que chegue para as necessidades
de uma Europa a 25? E, finalmente, o que é o «novo
quadro institucional»? Só a arquitectura dos poderes
ou também a ausência de competências na saúde,
na educação ou na cultura, matérias de exclusiva
responsabilidade dos Estados?
Há um ano, antes de o tratado
ter sido rubricado pelos governos, ainda era possível encontrar
um leque consensual de questões parciais relevantes para
a posição portuguesa. Nessa altura, perguntas parciais
ajudariam o Governo a orientar a fase final de negociações.
Mas... há exactamente um ano os partidos que agora inventaram
esta esdrúxula pergunta chumbaram o contributo do Bloco nessa
direcção. Ora diziam que não se podiam referendar
tratados, ora que só depois de assinado se justificaria a
consulta...
Também por isto a indignação.
PSD, PS e PP reviram a Constituição em Abril e não
quiseram retirar a cláusula que proíbe o referendo
ao tratado. Nem agora o fizeram e ainda podiam. Com isso evitariam
este lindo serviço: uma pergunta que, além de capciosa,
é um apelo directo à abstenção. Será
que não enxergam? Ou enxergam de mais e o que querem realmente
é ficar de mãos livres para uma mera ratificação
parlamentar?
Se em Portugal se prepara uma comédia
de democracia, em Kiev joga-se a sua sobrevivência. Por lá,
não tenho voto, nem candidato. Mas já vi aquele filme:
o «vencedor» perdeu e o povo, contra a chapelada eleitoral,
defende quem ganhou. Estou com a rua. Prefiro um mau Presidente
eleito a outro que só vence na secretaria. As pessoas devem
ter o direito de tirar a experiência das suas escolhas. A
democracia é, também, essa maioridade.
Vejo as imagens na TV e antevejo
a ansiedade nos rostos dos comunistas portugueses. Por isso lhes
gostaria de dizer que na Ucrânia não cai o último
comunista, mas a sua caricatura pró-russa. Putin diz que
os resultados no Afeganistão não foram mais credíveis
do que os de Kiev. Pois não. Mas a sua conclusão é
a de um czar - com batota, o mundo fica melhor. Eu acho precisamente
o contrário. E por isso critico também os dois pesos
e duas medidas que a Europa continua a revelar. Como é possível
apoiar a rua de Kiev e, no Iraque, legitimar a vergonha das eleições
que se avizinham?
mportas@europarl.eu.int
|