Fallujah
Artigo publicado no Diário
de Notícias, Opinião, 18.11.2004
Fallujah
não é apenas mais uma tragédia humana a acrescentar
a outras - mais mil e quinhentos mortos; mais uns milhares de
feridos; ou ainda mais umas dezenas de milhares de novos desalojados.
Fallujah é tudo isso e
muito mais. É o cemitério onde se enterram as ténues
esperanças que ainda pudessem existir de uma solução
política para o conflito iraquiano.
Por causa de Fallujah, os xiitas
que se opõem à ocupação decidiram
não participar nas eleições de Janeiro. Por
causa de Fallujah, qualquer eventual envolvimento das comunidades
do triângulo sunita esvaiu-se, sufocada pelos bombardeamentos.
Por outras palavras, Fallujah é o lugar onde os militares
norte-americanos explicaram à ONU e à Europa que
a política no Iraque é a que a guerra impõe.
Em Fallujah enterra-se o que só viveu em intenções
escritas: «O papel de liderança que a ONU desempenha
na promoção do processo político e da reconstrução
do Iraque.»
Na semana passada, estive nas
Nações Unidas em delegação oficial
do Parlamento Europeu. Aí, reunimo-nos com os responsáveis
pelo processo eleitoral iraquiano. O que nos disseram é
que a ONU foi colocada ante um facto consumado. Norte-americanos,
australianos e o seu Governo em Bagdad marcaram datas sem que
alguma das condições prévias estivesse satisfeita.
É óbvio que não
existem condições mínimas para que as eleições
de Janeiro sejam mais do que um embuste e uma vergonha para qualquer
ideia de democracia. Com efeito, não existem condições
mínimas para recensear grande parte da população;
muito menos para incorporar as oposições à
ocupação; e a mobilidade de candidatos e eleitores
durante a campanha e o voto serão uma mentira.
As eleições de Janeiro
só podem realizar-se se os tanques norte-americanos e ingleses
forem os palcos dos comícios eleitorais. Não é
preciso «ser do contra» para perceber que isso separará,
definitivamente, iraquianos colaboracionistas e opositores. As
eleições de Janeiro são a via rápida
para que uma dinâmica de guerra civil se intrometa na presente
guerra contra a ocupação.
As decisões que o Conselho
Europeu tomou no início de Novembro são, neste contexto,
ridículas, caras e inúteis. 30 milhões de
euros para as eleições são dinheiro deitado
ao ar. Tal como, infelizmente, o foi boa parte dos 300 milhões
de euros que a União destinou, em 2003 e 2004, a ajuda
humanitária e reconstrução de serviços
de saneamento, água, educação e saúde.
Disso, em Fallujah, sobram pedras
e pó.
O que à Europa sobra em
dinheiro, falta-lhe em política. Eleições
no Iraque só serão um caminho para a transferência
de soberania se estiverem ligadas a um compromisso que fixe as
condições da retirada dos exércitos de ocupação
e sua substituição por uma força multinacional
de paz. Para isto deveria servir a conferência de Sharm
el-Sheick, prevista para 23 de Novembro deste ano. De outro modo,
esperemos, todos, mais do mesmo - a descida aos infernos.
Outro assunto: arrisco que o último
filme de João Canijo - Noite Escura - seja o mais importante
da filmatografia portuguesa desde Verdes Anos. Ele resgata quantos
e quantas, com escassez de meios, bem e mal, procuraram criar
um público para o nosso cinema.
Porquê? Porque ali está
tudo certo, da história aos cenários e dos actores
à fotografia. Mas, principalmente, porque Noite Escura
é, simplesmente, um excelente filme em qualquer parte do
mundo.
mportas@europarl.eu.int