A
luta continua
Se o mundo votasse,
nem todo o dinheiro deste mundo chegaria para reeleger Bush.
A eleição correu mal, podia ter corrido melhor,
mas a luta continua
Artigo publicado no Diário de
Notícias, Opinião, 04.11.2004

O
taxista afro-americano que me conduz do aeroporto a Nova Iorque
diz que ainda não há resultados e que Bush ainda
não ganhou. São 11 da manhã (6 da tarde em
Portugal) e ele pode, legitimamente, iludir a realidade das projecções.
Só acredita quando estiver tudo preto no branco e daí
não sai. Gostaria que ele estivesse cheio de razão,
mas não creio.
Teremos Bush por mais uns anos.
Era o resultado mais provável, bem sei. Mas as últimas
semanas de campanha deixavam uma ponta de esperança. Teria
sido extraordinariamente importante demonstrar que o imperador
podia ser derrotado no seu próprio país. A luta
política faz-se com símbolos e esperanças,
e a vitória de Kerry, sem trazer consigo uma ruptura na
condução dos assuntos mundiais, teria aberto novos
horizontes e possibilidades aos movimentos e opiniões públicas
que reclamam essa mudança.
Numa eleição fortemente
polarizada e participada, ganharia quem fosse mais claro.
De Bush pode dizer-se tudo, menos
acusá-lo de ter tergiversado sobre o tema que decidia a
eleição - a guerra.
Kerry, pelo contrário,
pediu o voto da paz afirmando que, consigo, a guerra se podia
dirigir melhor.
Complicado, pois. Mas nem por
isso os democratas deixaram de obter o voto de quantas e quantos
eram contra a guerra - o escassíssimo resultado de Ralph
Nader ilustra a evidência. Mas faltou o suplemento de mobilização
que só um voto pela positiva podia assegurar. E assim,
o campo da paz perdeu por poucos, mas perdeu.
Há qualquer coisa de imoral
nesta história. Afinal, o que se jogava dizia tanto respeito
aos norte-americanos como ao resto do mundo.
E Bush ganhou porque só
os norte-americanos puderam eleger o imperador. Se votassem palestinianos
ou iraquianos, ele perdia pela certa. Se o mundo votasse, nem
todo o dinheiro deste mundo chegaria para reeleger Bush.
Bem sei que isto é um desabafo
provocatório. Mas é o que apetece dizer neste dia
em que os norte-americanos apenas estiveram quase. Agora, pronto:
correu mal, podia ter corrido melhor, mas a luta continua.
A luta continua em particular
nos lugares da guerra, porque aí não há nada
a esperar da reeleição, a não ser um esforço
suplementar de Washington para envolver a Europa e o mundo árabe
no vespeiro da guerra entre o Tigre e o Eufrates. Veremos como
resistirão a esta operação.
Em terras de palestinianos e israelitas,
o mundo pensa que há um conflito, mas não propriamente
uma guerra. É um puro engano. Nos últimos quatro
anos morreram mais de mil israelitas e quase quatro mil palestinianos.
De ambos os lados, a esmagadora maioria das mortes são
de civis. Parece pouco, mas é uma brutalidade para os universos
populacionais em causa. Se se projectassem os mortos e feridos
palestinianos para o total da população norte-americana,
estaríamos ante 292 mil mortos e quatro milhões
e meio de feridos. Cinco vezes mais do que as vítimas norte-americanas
no Vietname.
A vitória de Bush não
promete nada de bom quanto aos esforços para uma solução
justa do conflito. Estive em Israel e na Palestina durante uma
semana, numa delegação de deputados do Parlamento
Europeu em visita não oficial. De Portugal esteve também
a Ana Gomes e ambos daremos conta do que vimos e ouvimos amanhã
à noite em Lisboa. A situação é bem
pior do que por cá se possa imaginar e a relegitimação
de Bush não contribui em nada para a tragédia em
que a terra prometida continua mergulhada.
mportas@europarl.eu.int