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O Conselho Europeu: Tiro
no porta aviões
Miguel Portas, 18.06.05
TRATADO
Um enterro sem dignidade
Politicamente, o Tratado estava ferido de morte.
E, juridicamente, a vitória do Não em dois países
colocava o Conselho num beco sem saída – porque
a exigência de unanimidade foi a regra do jogo a que todos
se comprometeram.
Por outras palavras, o actual Tratado jamais entrará
em funcionamento.
Neste contexto, o prosseguimento do processo de ratificações
carecia de qualquer sentido prático a não ser
o de irritar ainda mais os cidadãos.
Que decidiu Bruxelas? Decidiu não decidir. Nem ratificações
nem o seu contrário. Apenas uma pausa a ver se o clima
melhora...
Os 25 perdem-se ao respeito. Já é disso que
se trata.
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PERSPECTIVAS
O impasse pelas melhores razões...
Se alguém perguntasse a qualquer um dos 25 qual seria
o pior cenário deste Conselho, a resposta seria “nem
sequer se chegar a um acordo sobre as perspectivas Financeiras”.
Pois foi o que sucedeu.
Hoje, a comunicação social dirá que tal
aconteceu “porque o Reino Unido quis guardar para a sua
presidência a decisão final”; ou “porque
Chirac e Blair não se entenderam”. Este olhar confunde
causas e efeitos.
Na realidade, o que este fracasso coloca sob os holofotes
é a falência do modelo que rege o financiamento
da União.
O centro do desentendimento ocorre do lado das receitas. Paris
sustenta que a devolução de dinheiro a Londres
- o “cheque britânico” - é uma vergonha;
e Londres contra-argumenta com os absurdos níveis de
proteccionismo na Política Agrícola Comum. É
caso para dizer que ambos têm razão.
O fim do “cheque” e uma machadada suplementar
nos fundos atribuídos à PAC, libertariam essas
aplicações para objectivos um pouco mais nobres.
Qualquer uma destas decisões teria o valor de uma mensagem:
“não mexemos mais profundamente nas Finanças
europeias, mas aqui está a prova de que a União
é um projecto capaz de se auto-corrigir. Mas não.
Nem isso.
Enquanto não se reconhecer que a Europa precisa de recursos
próprios – receitas fiscais europeias e emissão
de dívida pública – as discussões
financeiras serão sobredeterminadas pelo conflito insanável
entre os limites das contribuições de cada Estado
e “os direitos adquiridos”.
Os 25 quiseram fazer omeletes sem ovos e não conseguiram.
É preferível.
Apesar das negociações terem, tudo indica, satisfeito
os apetites de Lisboa, o acordo era mau para a Europa no seu
conjunto. E amarrá-la-ia a 9 anos de menos do mesmo.
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PLANO S
Emergência Social pela Europa
A 24 e 25 de Junho, em Paris, encontram-se os movimentos e
partidos que na Europa se reconheceram no Não de esquerda
francês.
Em face da crise aberta de liderança, o movimento encontra-se
ante uma nova responsabilidade – desencadear as iniciativas
políticas que mobilizem as energias e vontades sociais
que exigem uma refundação democrática e
social da Europa. No exacto ponto em que as coisas se encontram,
os “de cima” não podem continuar a dirigir
a União como antes, e os de “de baixo” ainda
não têm como arrancar da Europa os compromissos
sociais fortes que a possam fazer renascer aos olhos das opiniões
públicas.
A actual crise tem duas portas de saída: uma é
negativa – uma nova ordem onde se reforce a lógica
dos Estados nacionais e a ideia de uma “Europa mínima”;
a outra é positiva – uma Europa que responda às
urgências sociais enquanto se refunda na base de um verdadeiro
e democrático processo constituinte.
mportas@europarl.eu.int
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