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POIS É | Miguel Portas
De pequenos nadas...
Regresso pela estrada de
montanha por onde entrei, vindo de Damasco. A fronteira ainda está
aberta. Por poucos dias, aliás. O cenário já
é distinto do da chegada, três dias antes. Descendo
para o vale de Beckaa, novos camiões de alimentos jazem,
calcinados, nas bermas. A caixa aberta de um deles tem ainda os
legumes à vista. Um pouco mais abaixo, uma jornalista da
Al Jazzira faz o seu directo com uma vila por cenário. Também
aí caíram os castigos do céu.
Israel atacara pela manhã as encostas do vale. Voltaria
a fazê-lo nos dias seguintes.
Em Beirute, a delegação do Partido da Esquerda Europeia
esteve três dias. Fomos devidamente desaconselhados pelas
respectivas embaixadas e delegação da União
Europeia quanto a uma prevista deslocação ao hospital
de Saiida, cidade costeira mais a Sul. Elas não acreditavam,
está visto, nas virtualidades dos corredores humanitários
“garantidos” por Israel, mesmo que o transporte fosse
assegurado pelos Médicos sem fronteiras... Acabei por não
visitar, desta vez, o Sul. Também não veria por lá
nada que as televisões não mostrem todos os dias.
Ao
15º dia de guerra, Hassam Hajj, deputado do Hezbollah, estimava
em mais de duas centenas os edifícios destruídos na
zona Sul de Beirute. Cinco mil famílias sem casa, portanto.
Ou seja, 40 mil desalojados, uma gota mais de tragédia nos
750 mil que já tinham fugido da guerra e se encontram espalhados
pela outra Beirute, a poupada, e pelo centro e Norte do país.
A maioria destes refugiados são crianças – 45
por cento até aos 12 anos, estima a Ministra dos Assuntos
Sociais que, diante de nós, exibiu durante uma hora a sua
impotência. Acotovelam-se em escolas, em casas desocupadas,
ou recebidos por famílias. Sabe-se hoje que isto é
pouco, comparado com o tormento dos que não conseguiram sair
ou, pelos mais variados motivos, não quiseram abandonar as
suas terras. Sabe-se hoje que o massacre de Qana foi apenas o mais
brutal. Não foi único, nem excepção.
Não fui para Sul, mas tive oportunidade de falar com pessoas
que aí conhecera de outras viagens: homens e mulheres que
iniciaram as suas fugas ao quinto e sexto dias de guerra. Estive
também com os grupos de jovens que, na Zico house,
se desdobravam em equipas de apoio humanitário. Esta casa
apalaçada do centro da cidade transformou-se, por vontade
do seu proprietário, num espaço auto-gerido onde diversos
projectos de urgência montaram os seus centros logísticos.
Ali não se distinguem confissões. Há chiitas,
sunitas, cristãos e druzos. A causa é a mesma –
minimizar os efeitos da guerra e, ao mesmo tempo, realizar acções
de protesto contra esta guerra de agressão, que cheguem aos
media internacionais.
Entre todos e todas, recordo Fawaz Hanadi. Conhecia-a em Tiro,
onde era vereadora, eleita como independente nas listas do Hezbollah.
Para quem julgue que este movimento político, maioritário
no Sul do país, é um mundo fechado de barbudos fanáticos
com rockets ao ombro, fique pois a saber que esta mulher é,
ao mesmo tempo, chiita e laica, não usa lenço, veste
à ocidental e não é casada. Sendo independente,
aceitou o convite do Hezbollah para integrar as suas listas, porque
os considera “sérios e honestos no trabalho”
que fazem. E se o Hezbollah a convidou é porque dirige, há
anos, um projecto de diálogo inter-comunitário na
região. Valeria a pena contá-lo, como começou
a partir do diálogo com os prisioneiros da prisão
e centro de tortura que os israelitas instalaram em Rhyam, quando
ainda ocupavam a faixa Sul do Líbano. Mas hoje, até
isso é risível. Saiba apenas que a vida de Fawaz não
pertence aos catálogos e epítetos da “guerra
contra o terrorismo”. E que a desmente, como tantas outras.
Agora em Beirute, depois de ter colocado a sua avó e a sua
mãe em segurança, ela continua o seu voluntariado,
apoiando clínicas móveis. Arranjou tempo para se encontrar
comigo. Estava naturalmente ansiosa, cansada, estafada. Disse-me
que, no fim, o Líbano sobreviverá, mais uma vez, ao
agressor. Mas sabe, também que, “esperando a vitória,
não haverá uma só casa de pé”.
Não tem escolha, a guerra não lhe deixa escolha. Mas
odeia o seu cheiro e a sua cor, a do sangue que corre entre destroços.
Agradeceu-me o apoio. Não precisava. Neste reencontro, em
que se perguntava que “mal teria feito ao mundo por ser xiita”,
percebi o valor que pode ter uma visita em tempo de barbárie.
É o de um pequeno gesto, um pequeno nada em forma de abraço.
Para quem resiste e se sinta abandonada por um mundo incapaz de
travar a besta assassina, ajuda. Ajuda mesmo.
* Eurodeputado do GUE/NGL, eleito pelo
Bloco de Esquerda, e membro do Presidium e da Executiva da European
Left. Dirigiu a delegação de 6 deputados que este
partido enviou a Beirute entre 25 e 27 de Setembro
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