| ISRAEL
Mais complacência, não!
Miguel Portas , 15.03.06
Os
media difundiram a imagem pelo mundo: prisioneiros políticos
palestinianos de roupas na mão, escoltados por soldados do
Tsahal, o exército israelita, após o assalto que realizaram
à prisão de Jericó, até então
sob monitorização norte-americana e britânica.
A humilhação é indissociável da agressão.
Do mesmo modo, esta é inseparável da inusitada retirada
dos observadores internacionais. E esta ocorreu, não por
razões de segurança, mas porque na campanha eleitoral
em Israel, o Kadima está a perder nas intenções
de voto. Os factos falam por si: trinta minutos depois do abandono,
entrou o exército. Em território sob administração
palestiniana, unilateralmente; e numa prisão sob acordo internacional,
unilateralmente.
No assalto morreram pessoas. No rescaldo, fizeram-se reféns.
Tudo previsível, sempre previsível. Na Terra Prometida,
não cabem os milagres. Mas sobra, e muito justamente, a indignação.
O presidente palestiniano encontrava-se em Estrasburgo para discursar
hoje no Parlamento. Não o pode fazer. Como foram vãs
as suas tentativas para evitar a catástrofe. Mahmoud Abbas
conhecia as pressões israelitas. Ofereceu uma solução:
o retorno do secretário-geral da FPLP à Muqata, onde
já estivera durante o isolamento a que Israel submeteu Arafat.
Aí continuaria detido, apesar de deputado eleito, com garantia
de que não fugiria. Mas o actual primeiro-ministro e candidato
às próximas eleições, preferiu o que
o jornal Libération definiu como raid eleitoral. Ehud Olmert
imita o pior de Ariel Sharom. Nesta operação terrorista,
visa votos, mas não só. Visa igualmente o enfraquecimento
de quantos na Palestina procuram uma solução política
para o conflito. Visa também provocar o partido que ganhou
as eleições, o Hamas, a ver se este "descarrila".
E visa atingir a mais importante das organizações
laicas da esquerda palestiniana, para que esta ponha fim à
trégua. E com tudo isto, justificar a continuação
do unilateralismo e da ocupação de terra palestiniana.
Nada disto é, uma vez mais, novidade. Em bom rigor, é
o resultado das complacências acumuladas a ocidente com Israel.
O Kadima sente-se seguro com os EUA. Estes sempre cobriram o comportamento
militar de Telaviv. Também não precisou de testar
a posição britânica, uma vez que a coordenação
de movimentos ultrapassa os limites de qualquer coincidência.
Na realidade, o governo israelita testa a União Europeia
e as suas eternas hesitações. Veremos nos próximos
dias se esta estará à altura do desafio. Até
hoje...
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