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Parlamento Europeu, 15 de Novembro
de 2006
Bolkestein volta a atacar
O parlamento Europeu aprovou hoje, através de um acordo de "bloco central" que havia sido estabelecido, há um ano, entre os socialistas e a direita, a chamada directiva Bolkestein. A esquerda e os verdes propuseram ainda um conjunto de alterações pontuais que iam no sentido de proteger os direitos do Trabalho. As alterações foram rejeitadas pelos signatários do compromisso. Mas o grupo socialista partiu-se. Grande parte dos eurodeputados franceses, italianos e gregos do grupo da rosa votaram essas emendas com a ala esquerda do PE. O mesmo não aconteceu com os eurodeputados socialistas portugueses, todos muito obedientes... RENATO
SOEIRO em Estrasburgo
Estrasburgo, 15 Nov. 2006 - No momento em que escrevo estas linhas,
acaba de ser votada no Parlamento Europeu a Directiva sobre Serviços
no Mercado Interno, que ficou conhecida como directiva Bolkestein.
Trata-se de uma votação em segunda leitura, após
uma série de alterações ao texto inicial ter
sido introduzida pelo PE na primeira leitura (ver
artigo anterior).
Os grandes grupos políticos (PPE e PSE), que tinham feito
um mau acordo aquando da primeira leitura, capitulam agora face
ao seu próprio compromisso anterior, sob pressão
do comissário Charles McCreevy, herdeiro, na Comissão
Barroso, do pelouro do Mercado Interno, de que Fritz Bolkestein
era responsável na anterior Comissão Prodi. McCreevy
ameaçou que não aceitaria nenhuma alteração
do Parlamento face à recente posição comum
proposta pelo Conselho, "tão difícil de conseguir",
segundo afirmou. PPE e PSE poderiam e deveriam ter reagido a esta
chantagem, defendendo as prerrogativas do Parlamento, que pode
aprovar as posições que entender. No caso de não
coincidirem com a posição comum do Conselho, obrigariam
a directiva a entrar numa terceira fase de negociações,
a chamada conciliação. Com esta capitulação,
o processo legislativo termina aqui e a terceira fase é anulada.
Jogo viciado na segunda parte, não há prolongamento.
Esta posição comum poderia ter sido vetada à nascença
por qualquer dos governos; sobretudo, poder-se-ia alimentar a esperança
de que esse veto fosse introduzido por algum dos governos em que
participam forças de esquerda. Lamentavelmente, os governos
estiveram todos de acordo, todos do lado errado nesta luta. É precisamente
essa unanimidade que hoje dá força ao herdeiro de
Bolkestein.
A posição comum do Conselho (que é, desde
hoje, também a do Parlamento), atacando eventuais medidas
com que os Estados Membros possam querer proteger os seus serviços
sociais ou os direitos dos trabalhadores, atribui um peso exagerado
ao poder da Comissão e às "interpretações" que
vierem a ser feitas pelo Tribunal de Justiça no que respeita
ao controle de quaisquer novas disposições legislativas,
regulamentares e administrativas que os Estados Membros adoptem
neste campo.
A ideia de subordinar à legislação comunitária
todas as disposições dos Estados Membros nesta matéria,
embora se aplique a todos, tem um alvo preferencial: as práticas
laborais dos países nórdicos, onde as taxas de sindicalização
são muito elevadas e o forte poder negocial dos sindicatos
tem construído um conjunto de relações laborais
que produz uma redistribuição de rendimentos mais
equitativa do que noutros países menos desenvolvidos, que
passarão agora, na prática, a ser o novo padrão
de referência europeu.
É
demasiado incómodo para a propaganda neoliberal que os países
onde o leque salarial é mais pequeno, onde a riqueza está menos
concentrada, e onde os serviços públicos e a protecção
social pesam mais nas contas públicas, sejam precisamente
os países mais ricos e desenvolvidos do mundo, segundo todos
os índices publicados.
A desregulamentação, os cortes nas despesas sociais
e nos investimentos e serviços do Estado, as baixas taxas
de sindicalização, a concentração da
riqueza, a diferenciação exagerada de rendimentos,
e o aumento da precariedade laboral e social devem ser encarados
como factores de empobrecimento geral da população
e obstáculos ao desenvolvimento. Não são as
condições indispensáveis para o progresso
económico e a modernização, são, isso
sim, as marcas do subdesenvolvimento. Marcas demasiado fortes no
nosso país.
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