| Sessão
de 25 de Outubro de 2006.
Intervenção sobre a União
Europeia e a Síria
Miguel Portas (GUE/NGL)
O relatório da eurodeputada Veronike de Kayser quer reabrir
o diálogo com a Síria, tendo no horizonte a sua normalização.
Estamos de acordo.
Vemos o acordo de associação UE-Síria como
uma peça desse processo político. Sublinho "político",
porque do ponto de vista económico, o acordo é bem
mais vantajoso para a Europa do que para a própria Síria.
O congelamento das relações com Damasco, em 2004,
foi um erro político.
A Europa não deve ter "listas negras", nem aderir às
teses norte-americanas sobre o "eixo do mal". A Síria,
independentemente do seu regime, é um país essencial
para a Paz na região.
Por outro lado, a Europa deve aprender a valorizar a complexidade
da sociedade síria e a pluralidade de opiniões aí existentes.
O regime é tão autoritário na política,
quanto brando na economia, e liberal na religião e nos costumes.
É
verdade que essa pluralidade se encontra abafada e comprimida.
Mas ela existe na sociedade, e também no interior das próprias
instituições. Será tanto maior, quanto menor
a ingerência das potências de ocidente.
É
uma pena que a versão final do relatório enferme,
em vários pontos, de tiques herdados da idade colonial.
Por exemplo, não nos compete nomear quem é, e quem
não é de confiança em Damasco, porque não
aceitamos de terceiros, e muito bem, tal tipo de opiniões.
Também seria bom que não lançasse suspeitas
sobre imaginárias relações do regime com a
Al Qaeda e o integrismo sunita. A ignorância não nos
beneficia.
E devemos coerência a nós próprios. Não
se podem condicionar relações diplomáticas
aos resultados de um inquérito criminal. A prova do crime
sobre o horrível assassinato de Rafic Hariri, deve fazer-se
em tribunal, sob pena da política violar o princípio
da presunção de inocência.
Seja como for, o relatório é claro sobre o essencial.
Quer normalizar as relações. E isso é bom.
Situa a questão dos Direitos Humanos no quadro dessa normalização.
E isso também é bom. Só precisamos que a Europa
seja capaz de fazer o mesmo não apenas com a Síria,
mas com qualquer outro país do Mundo. Com todos os países
do Médio Oriente, Israel incluído.
Finalmente, o relatório apoia a restituição
dos Montes Golã a Damasco, uma garantia suportada em resoluções
das Nações Unidas, e que a Síria nunca procurou
recuperar por meios violentos.
Senhora comissária Ferrero Waldner: referiu que a Síria
se deveria aproximar da União Europeia. Por mim acrescento:
nós também temos que procurar entender o outro.
Que esta resolução possa ser um passo nesse sentido. |