| PARLAMENTO EUROPEU
Sessão de 24 de Outubro de 2006
Programa "Europa para os Cidadãos"
Intervenção de Miguel Portas, em nome do GUE/NGL
Senhor presidente,
Partilhamos as preocupações do programa "Europa
para os Cidadãos" e por isso lhe damos o nosso acordo.
A verdade é que não tem faltado a "Europa para
as empresas" nem a "Europa para o mercado". Pelo contrário,
temos tido muito pouca "Europa para os cidadãos",
muito pouco apoio a uma cidadania europeia com voz activa nos grandes
temas da construção do nosso espaço comum. Aí,
as decisões são tímidas, as leis escassas, o
apoio quase invisível.
Apoiamos este programa, mas criticamos a sua fragilidade orçamental.
Ele não escapa à regra restritiva e residual que sub
financia todos os outros programas plurianuais no sector da educação,
da cultura e da juventude. O sub-financiamento crónico destes
programas não é consequência da escassez de recursos. É o
resultado de uma opção política deliberada sobre
o tipo de União que o Conselho deseja e que, uma vez mais,
se revelou quando foram aprovadas as Perspectivas Financeiras para
2007-2013. Não há políticas eficazes sem financiamento
adequado. Haverá palavras e boas intenções,
mas a política deve ser bem mais do que isso.
Senhor presidente,
Estivemos de acordo com o relator quando ele manifestou a sua preferência
pela transparência na atribuição dos financiamentos
aos projectos. Estes devem ser o resultado de critérios claros,
com concursos abertos e júris isentos. Lamentavelmente, isso
não aconteceu no passado.
É
com satisfação que vemos, agora, consagrada a opção
de, gradualmente, se pôr termo ao escândalo do financiamento
extra-concurso a organizações que se colocam acima
das regras da concorrência leal, recebendo, ainda hoje, avultados
subsídios permanentes. Este procedimento prejudica a imagem
da União junto dos cidadãos. E o facto de nessas organizações
pontuarem, com frequência, nomes de importantes personalidades
que fizeram carreira nas nossas instituições, só agrava
a situação. Eu, que sou de um país do Sul, só posso
ver com agrado e simpatia o ar fresco que sopra do Norte, e que quer
ajudar a limpar alguns dos maus hábitos das instituições
europeias.
Por último, e no que toca à nova linha de financiamento
sobre os memoriais das ditaduras, quero expressar, mais uma vez,
a nossa discordância com o critério seguido. A exclusão
dos memoriais das ditaduras que, durante décadas,
oprimiram vários povos do Sul da Europa, revela falta de
respeito pelos milhares de vítimas dessas ditaduras. Sem
a vitória sobre esses regimes, as fronteiras da União
Europeia seriam hoje bem diferentes, e o seu território
bem mais pequeno.A exclusão dá aos cidadãos
o sinal errado: de que há ditaduras cuja memória não
deve ser esquecida, e ditaduras menos más ou até aceitáveis. É
um sinal errado para os cidadãos da União, e também
uma mensagem da Europa para mundo. O pragmatismo sobre as ditaduras,
com a sua política de dois pesos e duas medidas, tem envenenado
e desacreditado a política externa da União Europeia.
Neste ponto, teria sido preferível uma posição
de princípio e coerente, em vez do critério medíocre
e mesquinho que só foi capaz de olhar para a escassez dos
fundos disponíveis.
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