| DESLOCALIZAÇÕES NA
AGENDA EUROPEIA
A Opel da Azambuja em Estrasburgo
Miguel Portas, 5.7.2006
Representantes
da fábrica da Azambuja estiveram ontem no Parlamento Europeu
para divulgarem a sua luta. Com eles estiveram igualmente sindicalistas
da Saab sueca - que pertence igualmente à General Motors
- e ainda trabalhadores italianos de uma multinacional de origem
norte-americana, a Eaton, que fabrica válvulas para a indústria
automóvel, e que está a tentar deslocalizar uma fábrica
do Piemonte para a Polónia.
O convite do Grupo da Esquerda Unitária aliou-se à
inclusão, na agenda do Plenário, do tema das deslocalizações
industriais na Europa, também por iniciativa deste grupo
parlamentar.
Se bem que o Parlamento não tenha neste domínio -
aliás como em muitos outros - quaisquer poderes, a visita
e o debate deram visibilidade europeia a uma luta que já
extravasa as fronteiras do nosso país. Permitiram ainda confrontar
posições e a coerência entre palavras e actos.
"Quando chegará a minha vez?"
O comissário europeu responsável pelas empresas e
Indústria, Gunter Verheugen, não poderia ter começado
melhor a sua intervenção: "Lucros por um lado,
encerramento e deslocalização de empresas por outro.
Quando chegará a minha vez? Quando será afectado o
meu emprego? Muitos trabalhadores na Europa vêem-se hoje confrontados
com estas questões". Mas depois... depois nada, a não
ser mais do mesmo. Porque, afinal, "cabe às empresas
a decisão de fecharem as suas portas ou de deslocalizarem
as suas actividades". "Nem os Estados nem a União
Europeia podem ou devem interferir - e o caso da Azambuja não
é excepção, rematou.
A única novidade do comissário foi a confirmação
de que a Comissão Europeia solicitou ao governo português
que investigasse se fundos europeus foram atribuídos à
fábrica. "Se for esse o caso, faremos com que as nossas
condições sejam respeitadas", concluiu.
O debate proposto pelo GUE pôde ser agendado porque os socialistas
e os verdes se associaram à iniciativa. O líder parlamentar
do PS Europeu fez mesmo uma intervenção muito dura
contra a "crueldade" com que as multinacionais tratam
os seus empregados. Deu mesmo como exemplo, o escândalo da
seguradora mundial Allianz, de origem alemã, estar a procurar
despedir 8 mil trabalhadores quando apresenta lucros de 4,4 mil
milhões de euros... só para garantir a distribuição
de dividendos entre os seus accionistas. E concluiu: "as multinacionais
têm imensa fantasia para obter fundos e resultados. Mas nenhuma
para fecharem as fábricas".
Contudo, só amanhã se saberá se a sua firmeza
nas palavras - bem como a de eurodeputados do PS português
- se traduzirá numa posição consistente, quando
quinta feira for a votos uma Resolução sobre o assunto.
Para já, o PSE alinhou numa resolução com a
direita parlamentar que afasta o caso concreto da Azambuja do seu
âmbito, o que levou a esquerda a não subscrever esse
compromisso e a manter as suas emendas para votos em separado.
O horizonte automóvel
Os trabalhadores mantiveram encontros com diversos eurodeputados
e puderam expor circunstanciadamente a situação das
respectivas fábricas. Na Eaton do Piemonte, os trabalhadores
fazem piquete dia e noite à porta da empresa para evitar
que a administração proceda à deslocalização
das máquinas e ferramentas. Na fábrica Saab, que atravessa
uma situação de reestruturação há
vários anos, as idas ao psiquiatra vêm aumentando exponencialmente,
bem como as baixas por stress, que aumentaram 300 por cento nos
dois últimos anos.
Mas o que ficou como nota importante foi a extraordinária
solidariedade demonstrada pelos operários da GM em diversas
fábricas da Europa, com várias paralisações
de laboração, apesar da concorrência desenfreada
que as multinacionais lançam sobre as suas próprias
fábricas para a obtenção de novos modelos.
E também a convicção de que foi esta resistência
transnacional que obrigou a GM europeia a decidir sentar-se à
mesa com os trabalhadores para discutir a situação
da Opel da Azambuja.
Quanto ao GUE, decidiu realizar ainda este ano uma conferência
internacional sobre o sector automóvel. Em cima das mesas
de discussão estarão os direitos e as obrigações
que as multinacionais devem respeitar. Mas também o debate
sobre o futuro do sector e sobre as políticas europeias que
pura e simplesmente não existem porque esse é o interesse
da própria globalização capitalista: ela coloca
em concorrência não apenas as fábricas dos próprios
grupos, mas também os países entre si.
E assim é fácil perceber porque é que há
sempre alguns que nunca perdem. Mesmo quando, como é o caso
da GM, primam pela mais absoluta incompetência de gestão.
No mesmo dia em que estes acontecimentos se davam em Estrasburgo,
o Libération de Paris abria as suas páginas com um
destaque sobre a GM - que apresentou 10,5 mil milhões de
dólares de prejuízos em 2005 - e a possibilidade deste
gigante de pés de barro vir a cruzar participações
com a Renault e a Nissan. Na origem dos maus resultados não
estão os salários dos operários nem as suas
regalias sociais, mas uma gestão prolongadamente incompetente.
E no entanto... quem paga são os mesmos de sempre: 30 mil
despedimentos, quase 10 por cento dos trabalhadores desta multinacional,
foram despedidos nos EUA.
E os boatos ou reais intenções pairam, não
só sobre a Azambuja, mas sobre oito outras fábricas
no espaço europeu.
|