| PE - SESSÃO PLENÁRIA
DE 04.04.06
Reescrever a História?
Intervenção de Miguel Portas no debate sobre
o Programa «Cidadãos para a Europa» Senhor Presidente:
Comecemos pelo nome do Programa em discussão: Cidadãos
pela Europa ou Europa pelos Cidadãos? A diferença
não é o resultado de um lapso da Comissão.
É
consequência da cultura que domina as instituições
europeias.
Essa Cultura não percebe que só haverá novos
cidadãos pela Europa, quando esta deixar de alimentar, com
as suas políticas, as fracturas sociais e identitárias
no interior da União. Nenhum programa para a Cidadania resolve
este divórcio. Mas se ele, desde o seu nome, for o reflexo
do autismo, da surdez e da cegueira que mora "em cima",
então muito pior.
Por isso aplaudo a mudança no nome. Mas quero coerência
com o que se anuncia. Insistirei, por isso, sobre três aspectos:
Em
face da escassez de recursos - 235 milhões de euros
se o Conselho não cortar ainda mais - há duas opções
possíveis: ou se concentra o dinheiro em poucas acções
de grande visibilidade; ou ele se distribui pelos projectos que
promovem a cidadania europeia. O relator optou pelo compromisso,
procurando melhorar a posição da segunda opção.
Eu teria sido bem mais radical. Nada tenho contra grandes eventos.
Mas tenho tudo contra a mentira. A melhor virtude de um Programa
para a Cidadania Europeia é o de ser executado pelas redes
associativas que no terreno a alimentam. Qualquer desvio a esta
opção, em contexto de escassez, perverte a própria
ideia de Cidadania.
Por isso, não é sustentável a consignação
de um montante substancial dos apoios a seis instituições
- que agora são oito - sem concurso de qualquer tipo.
O procedimento normal em qualquer sociedade civilizada é a
selecção dos projectos através de concursos
transparentes. O contrário é a lei dos lobbies, dos
arranjos e dos favores. Neste caso concreto, fizeram-se acordos
de última hora para acomodar mais uma ou duas organizações.
Não julgo os seus méritos. Critico, isso sim, a completa
falta de mérito desta forma de atribuição
de subsídios.
Definir princípios, abrir concursos públicos e, no
fim, esperar que a isenção premeie o mérito
dos concorrentes - eis o que seria uma elementar lição
de cidadania europeia. Ou não será assim?
Ultimo aspecto:
O programa inclui um capítulo relativo à preservação
da memória. Com a entrada dos novos países do leste,
muito compreensivelmente nasceu a ideia de associar às vítimas
do holocausto a memória das vítimas do estalinismo.
Muito bem. Mas este alargamento do programa obriga a um terceiro
- o que faça justiça à memória das
vítimas do fascismo nos países do Sul da Europa.
A óptica da cidadania só pode ser uma: a do respeito
pela dor das vítimas, dos seus familiares e descendentes.
Outro critério não é possível.
Ainda hoje em Portugal, um movimento de cidadãos se tem
de bater para evitar que a antiga sede central da polícia
política da ditadura seja transformada num condomínio
de luxo e não num museu.
Cada um traz consigo as suas memórias, é verdade.
Mas é com elas, com todas elas, que se pode transformar
o passado num factor de cidadania.
O fascismo, colega Truppel*, foi um dos totalitarismos que marcaram
a Europa no século passado. Não pode ser cancelado
ou arquivado da nossa História colectiva, só "porque
o dinheiro não chega"...
* Truppel é uma deputada verde alemã, que sustentou
no debate que apenas o nazismo e o estalinismo eram totalitarismos
europeus. As outras ditaduras seriam, a seus olhos, fenómenos
nacionais ou locais.
Na realidade, o argumento esconde outro, bem mais mesquinho. Como
escasseiam as verbas, reescreve-se a História para que aquelas
sejam aplicadas em modelo tão concentrado quanto possível.
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