POIS É | Miguel Portas
A
esquerda e a Turquia
Editorial do
jornal GLOBAL,
Janeiro 2005
A
seguir à I Guerra Mundial, o Império
otomano finou-se e o que restava do exército, sob comando
de Kemal Ataturk dirigiu uma revolução que teve,
desde o início, os seus olhos virados para a Europa.
Sem Império, sem
qualquer antecedente nacional, e a braços com tentativas
de invasão, os revolucionários inventaram a ferro
e fogo um país que nunca existira a Turquia. Inventaram-na
num extenso território multicultural, reescrevendo uma
história mítica, inventando um alfabeto ocidental,
dando direito de voto às mulheres e liquidando as instituições
políticas e religiosas do antigo califado. Contra o atraso
e o conservadorismo, os “jovens turcos” foram radicalmente
laicos e estatistas.
O lado negro desta revolução
que começou progressista e modernizadora, abateu-se,
entre outros, sobre os curdos. O novo Estado “nacionalizou-os”,
negando-lhes o direito à língua e ao auto-governo.
O que fi zeram turcos, repetiriam os nacionalistas pan-árabes
na Síria e no Iraque. E no Irão. Os povos das
montanhas do Tigre e do Eufrates eram os perdedores da emergência
dos Estados nacionais no Crescente Fértil.
Perdedores, resistiram.
Na Turquia, o PKK é a expressão nacional dessa
luta que assumiu, até 1999, a forma de conflito armado.
Nesse ano, o PKK além de declarar o cessar fogo unilateral,
admite, pela primeira vez, que a nação curda viva
no quadro de outros Estados, com direitos culturais e políticos
reconhecidos.
A esta grande mudança
não é estranho o contexto internacional. Um Estado
Curdo é, nos tempos que correm, prenda que ninguém
deseja... Mas também não é compreensível
sem essa outra grande mudança, a que se prende com a
transição da Turquia para a democracia em nome
de um horizonte europeu. Hoje, a vontade unânime de todas
as oposições democráticas e laicas é
a de favorecerem esse processo e o tornarem irreversível.
Estão disponíveis para trocar a independência
por democracia e direitos humanos.
Também isto se
jogava no voto sobre o início das negociações.
Nós dissemos Sim, o PCP absteve-se. E nunca invocámos
a geografia ou divagámos sobre o peso da Turquia em fundos
comunitários. Porque se o nacionalismo é sempre
um cancro, no comunismo é a sua doença senil.