POIS É | Miguel Portas
Miopia
Editorial do
jornal GLOBAL,
Março 2005
Florence Aubenas e Hussein Hannoun
al-Saadi, reféns no Iraque há mais de dois meses
(ver Libération.fr)
Nicola Calipari e Giuliana Sgrena
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... o exército
dispara primeiro e pergunta depois; o ocupante, tanto
como os terroristas, não quer no Iraque jornalismo independente;
e Bush não quer que os Estados negoceiem com os raptores
o resgate dos seus cidadãos.
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Conheci Giuliana
Sgrena nos idos de 90, no seu jornal de sempre, o il Manifesto.
É difícil imaginar jornalista mais discreta e dedicada às histórias
das pessoas a que dava alma e rosto por esse mundo. A última vez
que a vi em Roma, estava de regresso do Afeganistão. Ela andava
sempre pelos lugares proibidos ou esquecidos do Mundo. Tinha que
ir para o Iraque. E em Bagdade nunca se ficaria pela segurança relativa
de um hotel.
Quando foi raptada, fazia uma reportagem sobre os
refugiados de Falluja. Tal como Florence Aubemas, de outro jornal
da minha geração, o Libération. Giuliana foi resgatada,
Florence ainda não. Mas a felicidade que invadiu a redacção do il
Manifesto não durou 5 minutos. O resgate custou a vida a um
herói, Nicola Calipari, um agente dos serviços de informação italiano
que já tinha intervido, meses antes, na libertação de duas voluntárias
italianas de associações de paz e solidariedade. Chamo-lhe herói.
O seu trabalho era tão perigoso quanto o de uma jornalista de guerra
que nunca quis alienar a sua independência acolhendo-se à protecção
dos exércitos. Ele cumpriu a primeira parte da missão - retirar
a jornalista ao grupo que a raptara. E morreu a cumprir a segunda
- garantir que ela apanhasse o avião de regresso. Morreu porque
o "fogo amigo" disparou contra a viatura da salvação. Uma vez mais,
foram os "libertadores" quem matou. Pode a ingenuidade querer colocar
mais este drama na conta dos "ossos do ofício" ou da falta de comunicações
entre serviços secretos - o fogo contra a viatura partiu de um
check point norte americano nas proximidades do aeroporto. Mas
desde o início da guerra do Iraque já perderam a vida 150 jornalistas
e parte substantiva, garantem os Repórteres Sem Fronteiras, pereceram às
mãos, não dos seus raptores, mas dos auto-proclamados libertadores.
Na verdade, há um padrão: o exército dispara primeiro e pergunta
depois; o ocupante, tanto como os terroristas, não quer no Iraque
jornalismo independente; e Bush não quer que os Estados negoceiem
com os raptores o resgate dos seus cidadãos, até porque "com terroristas
não se fala". Há um padrão. O padrão das guerras de ocupação. Só não
vê quem mesmo não quer ver. mportas@europarl.eu.int
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