POIS É | Miguel Portas
Bruxelas para lá de
Bruxelas
Editorial do
jornal GLOBAL,
Julho-Agosto 2005
Lampedusa
é um minúsculo ponto no Mediterrâneo. Um rochedo
de vegetação rala com cinco mil residentes vivendo
do ritmo sazonal de um turismo fora dos circuitos de sucesso. Quatro
ou cinco hotéis de dois ou três pisos, com poucos quartos,
alguns restaurantes de peixe, um porto, praias limpas e vida pacata.
Este quadro idílico torna ainda mais insuportável
o campo de concentração nas traseiras do aeroporto.
Fica-se mal disposto quando se sabe. É um vómito depois
de visto.
Foi um governo de centro-esquerda que
instalou o primeiro dos “centros de acolhimento” de
Itália.Mas os direitos de autor são alemães,
com chancela social-democrata. Agora, em Portugal, o governo ensaia
a intenção de os fazer no nosso país (Público
de 29 de Junho). Uma desgraça nunca vem só, já
se sabe. Mas é bom que se saiba: estes centros não
são reformáveis. São a face bruta da Europa
fortaleza. Têm simplesmente que ser fechados. Foi esta a mensagem
que deixámos em Itália.
A política de polícia
tem outra dimensão odiosa: coloca as polícias do Maghreb
ao serviço das fronteiras da Europa.
Aqueles regimes não são
propriamente um exemplo em matéria de direitos humanos. A
Europa “deslocaliza” o grosso do trabalho sujo. A este
propósito, conto-vos uma história exemplar. Recentemente,
a senhora Rice voltou a atacar a Síria por esta não
controlar as fronteiras com o Iraque. A Síria tem 15 mil
homens e 500 postos nessa fronteira. O problema é a sua extensão.
Há duas semanas uma delegação do PE esteve
com o presidente sírio. Ele explicou-nos que propôs
aos EUA e à UE a aquisição do equipamento elec
trónico necessário a esse controlo extensivo. Responderam-lhe
que não porque o regime “não era de confiança”.
Mas os 2 mil e 100 quilómetros de muro que Marrocos colocou
no Sahara ocidental estão equipados com esse material. Fornecido
pela Europa. O seu real objectivo não é controlar
a frente Polisário, mas impedir que a imigração
longínqua chegue a Tanger e daí à Europa. Eis
como se apresenta a política da fortaleza: indigna nos direitos;
cínica nos pesos e medidas; e canalha no outsorcing
policial.
mportas@europarl.eu.int
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