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Democracia sem Estado
Miguel Portas, Fevereiro 2006
O partido islâmico venceu as eleições na Palestina.
Com limpeza, sem chapeladas ou imposição de força.
Numa campanha eleitoral que é exemplo para todo o Médio
Oriente. Nos territórios sob administração
da Autoridade Palestiniana (AP) ainda não existe um Estado.
Mas já há democracia. Neste paradoxo se explica a
vitória do Hamas.
O Hamas vence porque não há Estado, mas ocupação.
E não há Estado porque o Processo de Paz não
o garantiu. Quando G.W. Bush e Javier Solana exigem que o Hamas
reconheça Israel, convém que se saiba que Israel nunca
reconheceu o direito dos palestinianos a um Estado soberano. Não
há reciprocidade.
Enquanto escrevo, a Euro News passa imagens do desmantelamento
de um "colonato ilegal" na Cisjordânia. A notícia
refere que 103 destas novas ocupações ocorreram desde
que Ariel Sharom se decidiu pelo unilateralismo. E uma juíza
israelita confirma que estes "postos avançados"
contaram com a cumplicidade do exército e dos ministérios
de Telavive. Enquanto encorajava ocupações selvagens
e acelerava a construção do muro, o falcão
que os media transformaram em pomba, procedeu à retirada
unilateral de Gaza - assestando numa AP exausta e impotente, aquilo
a que Leila Shahid, embaixadora na UE, classificou de "golpe
de misericórdia".
A comunidade internacional foi incapaz de sancionar o ocupante
pelo seu unilateralismo. Percebe agora como o fracasso do Processo
de Paz reforçou a vontade de mudança na Palestina.
Que ela se expresse no islamismo político, não é
boa notícia. É uma sanção à irresponsabilidade
internacional e ao compadrio e autoritarismo que grassavam no maior
dos partidos seculares da Palestina - a Fatah.
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