| GLOBAL,
Março 05
Líbano: Quando os cedros tomam a palavra
O HOMEM MAIS RICO DO PAÍS FOI ASSASSINADO. UM MOVIMENTO
PACÍFICO DERRUBA NAS RUAS O GOVERNO PRÓ-SÍRIO.
A COMUNIDADE XIITA REAGE E DEMONSTRA A SUA FORÇA. ENTRETANTO,
A FRANÇA ESPREITA A SUA OPORTUNIDADE, OS EUA QUEREM HUMILHAR
E VERGAR DAMASCO, E A EUROPA, MAIS UMA VEZ, NÃO EXISTE. Texto
de Miguel Portas
Estrasburgo,
8 de Março de 2005: enquanto 1 milhão de
libaneses se manifesta em Beirute respondendo a uma convocatória
do Hezbollah e das organizações pró-sírias,
o Parlamento Europeu debatia um projecto de resolução
sobre os acontecimentos. Nesse dia, a posição do Conselho
e da Comissão eram, ainda, reguladas por alguma prudência.
Alinhavam o seu diapasão pela resolução 1559
do Conselho de Segurança das Nações Unidas
– que exige o abandono imediato e total das forças
sírias para as fronteiras do seu país - mas evitava
“massacrar” Damasco ou incluir o “Partido de Deus”
na lista das organizações terroristas. Contudo, a
direita parlamentar, alinhada pela posição israelo-americana,
insistiu. E conquistou os liberais para ela.
Dois dias depois, as direitas amarravam os socialistas a um compromisso
onde se instava a Síria à abstenção
de qualquer ingerência nos assuntos internos do Líbano
(como se fosse só ela...) e a cessar o seu apoio “às
actividades do Hezbollah e demais organizações terroristas”,
o passo necessário a uma posterior inclusão dos fundamentalistas
xiitas na lista anti-terrorista.
A esquerda, que apresentara uma resolução própria,
clara no apoio ao movimento que exige a plena soberania do Líbano,
mas igualmente responsável na recusa de diabolizar a Síria
e o Hezbollah, encontrou-se, no fim dos votos ante o dilema
de votar favoravelmente a resolução, para não
ser acusada de dar cobertura ao Hezbollah, ou ter a coragem
de contrariar um texto que cola a Europa à ofensiva norte-americana
na região. Escolhi a segunda opção. Posso bem
com as falsas acusações; não posso é
marchar ao lado dos que, irresponsavelmente, estão a lançar
o Líbano na sua segunda guerra civil.
A política no mundo árabe raramente é o que
parece. E no Líbano muito menos.
O assassinato, em circunstâncias não esclarecidas,
do homem forte do país, Rafic Hariri, desencadeou um levantamento
nacional e pacífico exigindo a devolução da
soberania plena aos libaneses; entretanto, a França e os
Estados Unidos, realinhados nas políticas para o médio
e o próximo oriente, fazem votar na ONU uma resolução
exigindo a retirada imediata das forças sírias que
tutelam o país dos cedros; sob pressão de “baixo”
e de “cima”, Damasco ziguezagueia para, após
a queda do governo de Beirute, acelerar a retirada dos seus 14 mil
homens para o vale de Beekaa, um pedaço de terra fértil
entre montanhas, junto à fronteira entre os dois países.
Finalmente, a comunidade xiita reage, trazendo à luz do dia
o segredo que todos conheciam – a enorme influência
do Partido de Deus entre a maioria dos pobres do país. O
Líbano entrou em ebulição. E todos os alinhamentos
se refazem.
Beirute, 20 de Fevereiro de 2002: o início
da invasão norte americana do Iraque está por dias.
Na capital do Líbano, alguns milhares de pessoas ouvem o
líder do Hezbollah provocar os dirigentes árabes:
“não permitam que os franceses sejam mais árabes
que nós!” Ele referia-se à corajosa posição
francesa ante a guerra anunciada. Mas passaram dois anos e uma recente
viagem de G.W.Bush ao velho continente. As lideranças dos
dois lados do Atlântico fizeram as pazes e o Líbano
fez parte desse acerto – é o ganho outorgado a Chirac
pelo imperador. Em compensação, este ganha a aquiescência
francesa para vergar Damasco, de preferência sem disparar
um tiro. Ironias da História: no início dos anos 90,
enquanto as tropas da coligação livravam o Koweit
dos tanques de Saddam, os EUA cobriam os acordos de Taeff, que consagravam
a tutela militar síria sobre o Líbano... Portanto,
mudanças de monta.
Mas Beirute deve estar exactamente como a vi, há dois anos.
Esburacada ao longo da sua avenida central, a estrada de Damasco,
mostrando as feridas de uma guerra civil onde todos lutaram contra
todos; elegante ao longo da marginal, em tributo à cultura
ocidental que por ali passou; e confusa, pobre e paupérrima,
consoante se penetre no interior da cidade sunita, xiita ou palestiniana,
e por esta exacta ordem. No meio, esventrado, está o Centro
da cidade, onde o primeiro ministro assassinado, Rafic Hariri, aplicou
em imobiliário de luxo a inesgotabilidade dos seus recursos
financeiros, um dia adquiridos à sombra da asa protectora
do então príncipe saudita, Fahd Abdel el Aziz. E lhes
adicionou, com garantia de benefícios privados, os recursos
do frágil Estado libanês, que em 3 anos conseguiu a
proeza de sextuplicar a sua dívida pública...
Tudo na mesma? Salvo o facto que os cedros desataram a falar. As
duas comunidades que historicamente se identificam com uma identidade
nacional libanesa - os druzos e os cristãos maronitas –
aproveitaram a circunstância do crime para lançarem
um movimento pacífico e democrático pela restituição
da soberania ao país. Os antigos inimigos jurados demitiram
o governo sem banho de sangue, algo impensável num país
árabe. Por outro lado, o Hezbollah exibe a sua força
guardando as armas e sem exigir a “democracia de um homem,
um voto”, que os levaria ao poder absoluto. É sábio.
Mas na região e no país, tudo se move e os sistemas
de alianças também. Colocar o Partido de Deus na lista
anti-terrorista é lançar o país na guerra civil,
o real objectivo dos falcões de Israel. Não é
seguro que o desregular da presente situação não
leve algumas comunidades a reclamarem a partição do
país em Estados confessionais homogéneos. Precisamente,
o que legitimaria a existência de Israel enquanto Estado judaico...
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